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Eu e os Macs

Senta que vem história. Again.

Em outras oportunidades contei que tive meu primeiro contato com computadores através duma máquina UNIX. Com as máquinas Apple foram em dois momentos: um com um Apple II "feito no Brasil" (que era dum colega de aula no primeiro grau e que de vez em quando deixava fuçar) e com Macs de agência de publicidade fundo-de-quintal (geralmente Quadras e os primeiros PowerMac).

Eram máquinas pesadas, barulhentas, beges, cheias de não-me-toques. Tinham o atrativo de terem um sistema que funcionava como uma alma própria (inclusive com auto-arbítrio; quem usou por um tempo o Mac OS clássico sabe disso).

Meu primeiro Mac em termos de propriedade não foi um Mac. Foi um programa que rodava binários de MacOS 6. O programa não "existe" mais no sentido prático, mas foi o primeiro contato com alguma coisa que lembrasse o MacOS. Chamava-se Executor, feito por uma empresinha fundo-de-quintal chamada ARDI. E rodava bem certos programas, alguns jogos (principalmente os já antigos, tipo Prince of Persia), editores simples, algumas ferramentas de programação -- tudo sem precisar do Mac em si.

Lia inclusive volumes HFS, contanto que você pudesse ter um drive SCSI no seu PC. CD-ROMs para Mac também. Como o emulador rodava sobre DOS (embora tivesse versões para NeXT, Linux, etc.), bastava fazer uma "carga alta" do driver SCSI da Adaptec 15xx (a placa que eu usava) que tudo ficava bem. Pedi emprestado a um amigo um drive com alguns programas, e os 10% que rodavam chegavam para saciar a curiosidade.

Então, ao mesmo tempo em que eu fazia um duplo-boot para alguma versão de Linux, já rodava programetes antigos do System 6 e System 7. Isso foi até 1997, quando descobri o vMac, um emulador de Mac Plus/Mac 512. Depois de grandes peripécias para conseguir a ROM (hoje em dia é tudo muito fácil, uma buscada do Google te provê todas as ROMs feitas para tudo quanto é coisa), quase apelando para o método físico, consegui bootar o System 6 e rodar, daí, todos os programas que eu queria, num Pentium, com velocidade análoga ao Mac Plus.

Não demorou muito tempo depois e outros projetos de emuladores estavam surgindo. Mesmo nesse período eu desenvolvendo coisas para Windows para sobreviver, em casa o grande motivo de rodar Windows era rodar um que outro emulador. O que desempenhava melhor era o BasiliskII (que ainda existe e é utilizável), e que consegue rodar hoje em dia até o Mac OS 9 (até onde eu saiba).

Em 1997/1998 aconteceu uma sucessão de fatos que fariam minha curiosidade aumentar em torno da plataforma mais ridicularizada (e, talvez, a mais elitizada) no Brasil. Um, que a NeXT tinha comprado a Apple (nunca acreditei em boatos contrários :) ). A outra coisa é que o MacOS tradicional iria virar apenas uma camada de execução -- um "daemon" -- do NeXT. Acompanhei o NeXT desde o final dos anos 80 nas revistas especializadas; parecia tudo muito surreal e impossível, tanto do ponto de vista tecnológico como mercadológico. Sem contar que seria fácil de ter acesso ao novo sistema "híbrido", era só ter um G3.

O G3 (processador, computador, geração, chame do que quiser) foi o resgate da Apple. Era um processador que rodava em clock relativamente alto, rápido, com arquitetura de motherboard limpa, tentando eliminar aos poucos o legado "anos 80/90" do Mac. E a Apple criou um sistema de vendas diretas nos EUA, que permitia o cidadão escolher a configuração exata do equipamento (mantendo-se a placa-mãe, obviamente). Em termos de negócio de computador, a Apple continua a mesma: uma coisinha especial numa placa-mãe, com um sistema que se obtém com "venda casada" e que interage com o hardware como se fosse feito para ele e vice-versa. Meia-dúzia de configurações, com drivers conhecidos, e um sistema relativamente estável. Segredo da ressurreição.

Eis que veio o iMac. O iMac também mudou tudo, mas no sentido estético da coisa. Fora beges quadrados, entram coloridos redondos (para depois ser transparências, seguido de branco hospitalar, depois aço escovado, e agora "cara-de-tv-de-plasma"). Um computador praticamente sem legados em termos externos. Preço ridiculamente baixo, mesmo comparando com um PC. Como ainda estávamos em época de "bolha do Real", o Real estava artificialmente valorizado, ainda na faixa da paridade com o dólar. Cheguei a comentar em casa: "vamos juntar uma grana e comprar esse negócio aí".

Afinal de contas, "esse negócio aí" tinha CD, som, USB, modem, ethernet, tudo incluído. E em questão de um ou dois anos rodaria UNIX. Já se conseguia rodar Linux (como mais tarde fiz com outros PowerPCs).

1999 chegou e o dólar explodiu. Com ele veio uma crise muito pior do que esta que aconteceu (pelo menos no Brasil). Não eram só os Macs que ficaram inacessíveis: tudo ficou inacessível.

Mas eu consegui fazer um rolo no fim-do-ano e comprei de um amigo um jurássico Quadra 605 (que funciona até hoje, apesar do HD ter morrido). Foi o primeiro Mac que eu pude chamar de "meu", pra ficar no chavão. Como ele tinha uma porta serial, eu consegui fazer uma gambiarra para fazê-lo acessar a Internet (don't ask). Netscape 3 Gold nunca rolou tão bem na tela (os emuladores eram bacanas, mas a parte de gráficos ficava a desejar -- porque era emulação, e nem com JIT gráficos rodam mais rápido em software do que em hardware real, todo mundo sabe disso). Ficou uma coisa estranha: nos benchmarks os emuladores surravam o Quadra 605 em quesitos de processamento, mas apanhavam feio em gráficos.

O Quadra 605 tinha um 680LC40. Acho que é esse o nome, nem vou verificar. O LC significa "Low Cost". Que significa que "floating point" não tinha. A solução era rodar coisas que exigiam "floating point" em software, o que basicamente reduzia a velocidade dessa parte do processamento dos programas em 150%. Em 25 Mhz até sopro fazia diferença.

Em nem três meses depois comprei via MercadoLivre um PowerMac 8100, 110 Mhz, 48 de RAM, vários gigas de disco, ethernet (que tive que comprar um transceiver de R$ 50 para colocá-lo em par trançado), e um sonzinho embutido melhor do que o Quadra (já dava para colocar num aparelho de som de certa responsa). E já conseguia tocar MP3. Mas eu já tinha o meu Pentium nessa época; então um acabava ficando servidor do outro, e a minha (conhecida) pendenga de colecionar computadores meio que começa por aí.

Sabia que estava "defasado" em termos de software com essas maquinetas (o 8100 rodava até o MacOS 8.1 e só) mas não me importava muito. Ora, o UNIX é um sistema de 40 anos de idade; não há de fato muita inovação na nossa área. E a internet era bem mais neutra em termos de "barreira de entrada", ao contrário do mundinho hipster da Web 2.0, que exclui o usuário cada vez mais (e ele gosta!).

Nesse interim -- até que o Mac OS X "for consumers", a versão não-server, fosse para 1.0 -- eu aproveitei para testar, usar, adequar e crashear todo tipo de software para Mac possível. Não me interessava muito coisas estilo Photoshop ou Quark, porque meu negócio mesmo era desenvolvimento e redes, essas coisas que ninguém consegue fazer ao mesmo tempo. Nunca vi muitas graças em certas piratagens também: a maioria do pessoal que pirateava os "grandes softwares" acabava nunca usando mesmo. E espaço em disco não era o mato que é hoje, era um quintalzinho.

Daí para comprar um iMac foi um pulo. Os primeiros modelos já tinham lá seus dois (para três) anos, e já estavam surgindo upgrades de 400 Mhz. Os de 233, então, já estavam sendo "possíveis" de serem comprados por R$ 1200 (preço que era de 2008, que tristeza). A parte interessante/mais ou menos boa é que R$ 1200 de 2001 e R$ 1200 de 1998 não valiam os mesmos mil e duzentos. Em 2001 (como hoje) vale menos. Hoje é quase nada, pra todos os efeitos.

Novamente usei do MercadoLivre para comprar o iMac. Como na época o site tinha na grandiosa maioria gente séria, a transação ocorreu sem o menor dos problemas. O computador chegou inteiro via VaspEx (que está aí, agonizando devagarzinho) e, numa noite, instalei o mundo. Naquela semana, antes de vir o OS X via correio, ele rodou OS 9 muito bem. E como rodava bem. Nunca mais liguei o Pentium (exceto para limpar as coisas dele e vendê-lo).

Era outra coisa rodar os scripts do MPW (e compilar os programetes em Pascal/C) em questão de um, dois segundos e não dezenas de segundos a minutos.

Na primeira semana de Mac OS X já tinha instalado (na mão, porque não havia sistema de ports) o PHP, um novo Apache, PostgreSQL, Python, essas coisinhas com que já havia me acostumado. Java já estava lá, era só rodar. Na época do Mac OS X 10.0/10.1 as coisas eram difíceis comparadas com hoje; mas na época era bom o suficiente. Tudo via modem de 56k.

E o tal iMac tinha iTunes. E o iTunes era bom (não esse bloatware que é hoje). E rodava DivX. E todos viram que era bom.

O Mac OS X era pesado; você notava as coisas acontecendo por trás dos panos. Isso nos G3s; nos G4s a coisa tava bem mais avançada, mas como o dólar explodiu e nunca mais voltou, só consegui comprar um G4 em 2005 (quase no túmulo do PowerPC).

Logo depois veio o primeiro "grande update" (ou "serviço quase-obrigatório de proteção da máfia", se você preferir), o tal Jaguar. Eu até tinha conseguido o Jaguar pro G3, mas decidi comprar um iBook (em trocentas prestações, etc. -- lembre-se que havia uma crise permanente no Brasil e que o valor era alto). O iBook já vinha com o bicho. Passei um ano inteiro com o iBook embaixo do braço, literalmente como um caderno. Era praticamente uma extensão do corpo.

Em 2003 descobri que todos (aka. 100%) os modelos tinham defeitos na placa-mãe, e que em questão de meses iriam se desmontar. Foi o início do fim da qualidade da Apple. Qualidade marromeno que continua até hoje, mas ainda é melhor que as linhas "populares" da concorrência. Nem tão melhor, vale a pena frisar.

Foi uma desilusão grande. Não que eu tivesse sido muito afetado; apenas ganhei desapego (não foi nem de perto como outras perdas que tive na vida). Vendi o iBook por quase nada, mas o suficiente para eu montar um computador "from scratch", como há muitos anos não fazia.

Que, aliás, foi uma decepção atrás da outra. Comprei AMD, e a AMD estava nessas de usar engenheiros semi-escravizados, só pode. Ou departamentos de QA que só ganhavam milho, essa era outra possibilidade. Resultado: um combo placa-mãe+processador que aqueciam e queimavam. Pelo menos rodava FreeBSD numa máquina bem mais rápida que um Mac, o que era um certo conforto (no sentido de praticidade de uso).

Não deu certo por outros motivos também, não importam agora (é melhor esquecer). Logo depois comprei um G3 Blue&White, uma máquina já 5 anos defasada, mas que pelo menos não aquecia. Não aquecia e não fazia barulho. Eu até hoje acho que deveria ter processado a AMD por insônia causada por ventiladores de Athlon.

E o G3 300 Mhz, apesar de ultradefasado, rodava DivX bem, tocava o terror nos DVDs, e rodava Jedi Outcast porque permitia colocar uma Radeon 7000-sei-lá-quanto nele.

Depois veio outro G3 B&W, este de 450 Mhz; outro G3 Bege, este quase de graça; vários outros PowerMacs por preço de jujubas, sem contar outras maquinetas RISC com seus próprios Unices.

Mas estas são outras histórias.

Até que em 2008 cansei da "defasagem de velocidade" (vídeos HD estão aí, pô) e resolvi meter bala num Macbook sobra-de-estoque, daqueles brancos. E ainda fui com cara de bandido (roupa de usar em casa, barbudo, e pagando com cheque dobrado do ano retrasado, porque nunca uso cheque).

Deu certo. A máquina já se pagou só pelo aumento de produtividade. Aí me vi usando só o MacBook. E as outras máquinas?

Uma virou uma bicicleta; outra virou a máquina de outra pessoa; uma que outra eu doei, e o resto continua no "home office", de vez em quando sendo ligadas para uma ou outra brincadeira. Parafraseando João Lemos, "O Datacenter Acabou".

Mesmo depois de tantos anos de contato com a plataforma mais odiada do Brasil, ainda é estranho ver lojas que vendem Apple como eletrodomésticos, pessoas andando com Macbooks e iPhones por aí, podcasts sobre a religião que o mundinho Apple virou. Apesar do fanboyismo do pessoal recém-convertido (os recém-convertidos sempre são os mais fanáticos, pode notar), e da tentativa de Louis-Vouittonização da marca, vai por mim, é melhor agora. Quando era nicho-do-nicho era triste.

Poderia ser um desafio gratificante fazer um periférico não-compatível funcionar -- mas não era produtivo. Era caro. Era esmurrar em faca. Não é mais estranho usar um Mac para programar -- porque não é mais só o "computador dos artistas gráficos". Já dá até para declarar IR. Só não vamos tornar as lojas em boutiques, pelamor. Keep it real. E em Reais.

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Microsoft, ainda nos anos 90.

Daqui (http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&pg=1&template=3948.dwt&tp=&section=Blogs&blog=222&tipo=1&coldir=1&topo=3951.dwt ) eu vi essa declaração "anos 90" do cara da Microsoft:

"Não dá para comparar com o Leopard, que é um sistema operacional que roda apenas em uma máquina e que custa mais que um PC. Se o Leopard custa mais barato, na hora que vê na máquina, esse conjunto custa mais."

É, não dá mesmo. Digamos que uma máquina minimamente aceitável custe R$ 2k para rodar o Windows 7 (minimamente aceitável -- esqueça Celerons, GMAs, AC97s e afins). Daí coloque a versão mais cara do Windows nela (que deve custar mil reais).

Depois compare: dá para levar um Macbook.

E o Windows 7 não vem com nada. Nem meia-dúzia de joguinhos. Nada, nada nada. Nem um compiladorzinho de nada. É só um Vista melhorado. Só.

"Ah, mas dá para baixar". É? Também dá para comprar uma máquina por R$ 1k e colocar Linux nela. E daí? S Estamos comparando o "produto final"; então dá para concluir sim que o Windows 7 não sai mais barato não.

Sem contar que o tempo de pesquisar uma máquina nova, "pechincha", custa dinheiro. Tempo é dinheiro, a não ser para quem não tem as duas coisas (dinheiro e falta de tempo).

(P.S.: a alegação de que o "windows é o software mais usado no mundo", que consta em outro artiguete, só demonstra a inocência da editoria de informática da ZH.)

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Os profissionais mais importantes

Costumo brincar quando vejo um daqueles adesivos "agradeça um professor se consegue ler" (ou algo assim) porque aprendi a ler e fazer contas sozinho. Também não aprendi a ter senso crítico na escola (como boa parte das coisas que aprendi), mesmo porque era escola pública (e senso crítico em escola pública é concordar com o professor sempre; portanto ter senso crítico era pecado mortal). Só anos depois percebi que poderia ter sido completamente diferente, bem melhor, e destinando quase os mesmos recursos: não valorizavam quem capitaneava a sala de aula.

Hoje é um daqueles dias do calendário em que se lembra de uma classe de profissionais, ou uma classificação entre as pessoas. Não gosto de datas especiais nem dias fixos para lembrar de pessoas, porque no resto do ano elas não são lembradas. É o caso do dia do professor que, por óbvio, deveria ser feriado em todas as escolas (mas não é). Amanhã já vai ser esquecido, e tudo volta como era. Então vai um textinho.

Discuto em meus próximos educação e ensino diariamente. De longe o ensino é a área mais negligenciada no país; a razão de todos os problemas que acontecem, apesar das peneiras multibilionárias que se usam para tapar o sol ou fazer chover boas intenções. Na minha visão de aluno (por mais de quinze anos) e por ver de perto como a coisa toda acontece creio que tudo deveria mudar. Tanto no ensino público como o particular.

O ensino público primeiro, por ser o mais precário e por não ser auto-suficiente. Por ser deficitário. Sobre o particular eu tenho outras visões, que não cabem aqui.

Se tem uma obra de "welfare" que realmente traz benefício é escola. Já encontrei gente que não é a favor das escolas públicas, mas sem elas estaríamos bem, bem, bem pior. Provavelmente seríamos uma ditadura das bananas. Não que a lei seja extremamente respeitada por aqui, mas imagine uma situação de guerra permanente, com gente morrendo nas ruas de fome, golpes infinitos, imprensa oficial estatal que só poucos conseguem ler ou onde se aprende a ler só para isso, etc.; seria por aí. Então nem passa pela minha cabeça privatizar o ensino básico e o nível médio. Não resolveria o problema, nem mesmo se toda a população tivesse condições de pagar.

Algumas coisas mudaram no ensino público que o tornaram (ou tornarão) pior. O enjambre de "passar" o aluno adiante, para o próximo ano, a qualquer custo (para maquiar as estatísticas); a tentativa de reintrodução do ensino religioso (mesmo que seja facultativo); planos de carreira que a princípio parecem vantajosos para os professores mas ao longo prazo diminuem o valor real do salário; a criação de duas redes independentes de ensino público (uma controlada pelos estados, e outra pelos municípios, fazendo com que a corrupção e o pleno roubo fiquem mais difíceis de sofrer escrutínio), etc.

O despreparo dos professores é evidente. A culpa não é unicamente dos professores, mas do próprio sistema de ensino que os gerou; a coisa toda vem de longe. Às vezes ajudam a perpetuar a situação, agindo como seus próprios algozes. Um exemplo seria o fato de que muitos professores se associam a movimentos visivelmente anti-intelectuais, como sindicatos partidarizados; aliás não vi até hoje nenhum sindicato que seja a favor de pessoas inteligentes. Coisa que não aconteceria se a educação 'a priori' não tivesse falhado. Mas essa é outra história, a ser lembrada em dia adequado.

Também há um processo de auto-depreciação automático quando o professor, por falta de conhecimento, escolhe e segue metodologias/conceitos que não são científicos. Acreditem, essas coisas acontecem também fora da área das exatas. Neste caso não é o professor que é prejudicado, mas o aluno. Porque cedo ou tarde o aluno enfrentará a realidade. Não raro encontro professores que não questionam o status quo -- não só da sua área, mas da sua vida.

Uma coisa curiosa (e recente) é que estamos em uma era onde as pessoas fogem da responsabilidade como um funkeiro foge do dicionário; e é um fenômeno global. Nessa onda de "eu faço minha parte, e SÓ a minha parte" entra a questão dos pais. Educação é coisa que começa em casa, mas os pais preferem terceirizar a obrigação biológico-moral para as escolas. Isso é de uma maldade atroz, um comportamento que não segue nenhuma lógica. Bom, talvez seja até uma conseqüência óbvia: o que esperar de pais irresponsáveis e imorais, que "deixam a vida levar", vivendo tal qual animais?

Tem um argumento em que se diz que não seria bom que os professores do ensino público ganhassem mais do que ganham; geralmente é parte de um pacote ideológico onde figuram estatísticas de países como a Coréia do Sul -- onde figura uma realidade completamente diferente da brasileira --, que comprovariam a tese. Estão de brincadeira os que proferem essa tese. Como pode um cidadão que vai alfabetizar crianças ganhar perto de um salário mínimo por 20 horas de trabalho? Que tipo de educação fora da sala (como, por exemplo, freqüentar livrarias e participar de eventos culturais pagos) um professor consegue se isso mal serve para se alimentar?

Mesmo se conseguisse sobreviver (note a palavra "sobreviver"), e o resto? Não seria o professor -- por mérito -- um cidadão exclusivo, que deveria ser premiado pela sociedade diferenciadamente *exatamente* por ser mais importante e servir como fundação mais básica da civilização?

Seria e é. Eu, que sou autodidata por teimosia, reconheço que sem a massificação da educação não seria possível o avanço que tivemos nos últimos dois séculos em termos de ciência e organização da sociedade (inclusive com todos os defeitos associados). Então porque não darmos o passo adiante e valorizarmos os maiores responsáveis pela civilização como conhecemos?

Nessa parte alguém pensaria "ah, os que estão no PUDÊ não querem fazer isso". Vamos imaginar por um instante que não seja este o problema. Pode ser que seja a) o despreparo ou b) motivos ideológicos, por exemplo.

Se a) a maior parte dos que estão "no comando" também não tem preparo. Nem tinham antes, senão a situação não chegava onde chegou. Não se sabe para onde se quer chegar, o que fazer; que seria o mais adequado. O ensino dá o resultado décadas depois, então não é atrativo.

Pior é o b), onde imaginam que sabem o correto porque seguem a cartilha duma ideologia sem nenhum respaldo científico. Quando o resultado obviamente não aparece, chega a hora de maquiar o resultado: seja aumentando a nota do aluno, seja diminuir os scores mínimos para que as estatísticas se igualem a outros países, pra ficar nesses dois exemplos. Neste caso não se valoriza o professor porque o mais importante é o método em voga, etc. e o professor que se dane para se adequar aos novos "achismos" pedagógicos.

Quanto aos que desconfiam que "é que ELLES preferem que a população seja burra", às vezes tenho sérias dificuldades em aceitar que os políticos saibam o que estão fazendo; que tenham um projeto, por exemplo, para "perpetuar o mal". Ou que tenham um projeto, mas que de fato entenderam o que o próprio significa. Mais coisas se explicam pela incompetência (ignorância?) do que pela maldade, não é mesmo?

Talvez seja o caso; a nossa democracia, no final das contas, seria realmente representativa. Por indução, ELLES são os melhores exemplares de nós, a população que acabou educada assim: hedonista, anti-intelectual, com ódio do mérito e asco do conhecimento.

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Uma vitória da ficção.

Certo está Juca Kfouri. Pequeno trecho que saiu na Folha Online (http://www1.folha.uol.com.br/folha/podcasts/ult10065u632502.shtml):

"Nós vamos cobrar todas as promessas e vamos ficar chupando o dedo enquanto eles não cumprem como não cumpriram no Pan em 2007. Daqui a pouco vai começar a realidade e aí muitos dos que estão festejando vão começar a chiar" [...]

Consta que o projeto olímpico brasileiro é o mais caro: 13 bião de dólares. Mas vamos arredondar para baixo, para dar 25 bilhões, para fazer umas continhas. Me corrijam nas contas por favor -- não quero parecer ser do contra, porque no fundo não sou contra a decisão de ter jogos olímpicos em Pindorama. Só sou contra em 2009, quando estamos ensaiando uma saída do atoleiro (não saímos, não temos saída em vista e o povo ainda é majoritariamente pobre e semi-alfabetizado).

Reitero: me corrijam se minhas contas estiverem erradas:

- Uma cirurgia de ponte de safena, calculo, deva custar 20 mil reais. Então temos 1.250.000 cirurgias a menos. Hoje em dia, problemas do coração são o que mais mata no país, junto com o trânsito.
- Saca aquele computador XO, que queriam dar para todos os alunos? A R$ 500 cada, dá para comprar 50 milhões.
- Uma escola (sem contar custos de manutenção, que aumentam ao longo do tempo) custaria uns 30 milhões, assim, por baixo. Penso em escolas municipais, na periferia, que é onde o povo precisa. 30 milhões cada, e temos 833 escolas a menos. Faz falta.
- Uns tempos atrás, aquele coquetel para conter o HIV custava uns 300 reais. Seriam 83.333.333 (vixe, Python) tratamentos a menos. Tragédia humanitária, se pensarmos na dengue, na febre amarela, gripes, essas coisas que na hora todo mundo sente o aperto.
- Calculam em nove bilhões o trem São Leopoldo - NH. Imagino que esteja superfaturado. Por isso, daria então para fazer todo o trajeto de trem até quase Gramado, o que retornaria para os cofres -- em alguns anos, em desenvolvimento das regiões -- bem mais que 25 bilhões.
- O salário de um professor varia bastante. Digamos então que ganhe 1000 reais por mês (é, eles ganham pouco, sabe como é, nunca tem dinheiro para pagar os professores. Pro carnaval, festas, viagens presidenciais, paradas em feriados, pans e afins sempre tem). Então, daria para pagar 1.923.076 anos-professor (salários por ano, bruto). Pagando a vida inteira (inclusive a aposentadoria) dum professor, daria uns 38.461 professores a menos na rede pública.
- 83.333.333 porções de 300 reais, que é suficiente para comer o básico num mês (minha experiência numa família de 4 pessoas). Comida acaba logo, não resolve o problema da pobreza abjeta, então "cestas básicas" não parecem um bom investimento.
- Não consigo imaginar quantos km de ciclovias e ciclofaixas poderiam ser criadas, desafogando o trânsito assassino do Brasil.

Eu preferiria gastar esse dinheiro com welfare. E isso que não sou 100% a favor a welfare. Pode ser que isso traga um boom de desenvolvimento -- por causa do turismo, por causa de um novo Rio de Janeiro, todas essas coisas. Olhando a história recente, não vai acontecer. Vai ficar na conversa.

Imagino que, como o Pan (que ultrapassou mais de 500% o valor original) a aventura olímpica seja superfaturada. Então multiplique pelo fator que quiser e tire suas conclusões.

O erário brasileiro arrecada, obviamente, muito mais dinheiro que isso. Muito, mas muito mais. Muito mais mesmo. É um pingo na arrecadação, se formos parar para pensar. Não é um pingo se observarmos o que o governo gastou para abafar essa crise (que veio, influenciou o Brasil mas ninguém notou porque estamos basicamente 'queimando gordura' e apostando no fim da crise).

A arrecadação diminui a cada ano (porque o cenário não está tão bom quanto se prega, entre outros fatores) segundo os últimos anos, então o dinheiro fará falta. Dinheiro sempre faz falta, principalmente porque sai do bolso de todo mundo, todos os dias, independente do que fizermos.

Quanto aos jogos em si, me pergunto a relevância. Não consigo encontrá-la; mas isso é porque nunca gostei muito de circo, então nesse caso o problema sou eu.

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Como dirigem os habitantes do Vale (e arredores)

Tentarei em poucas palavras descrever como os "motoristas" (ênfase dupla nas aspas) do Vale dos Sinos e arredores dirigem. Pesquisa empírica, viu?

 - Porto Alegre: movimentos bruscos, a lei é como se não existisse para eles. Não existe pisca-alerta. Muita pressa para chegar a lugar nenhum.
- Canoas: Fittipaldis, Sennas e Piquets, tentam sempre o próximo recorde.
- Sapucaia: os carros velhos atrapalham. Muito.
- São Leopoldo: sempre descobrem uma pista a mais na pista atual. Se não descobrem apelam pro acostamento. São vingativos. Alguns andam armados.
- Campo Bom: se percebem que estão sendo seguidos, tentam te atrapalhar ao máximo. Cortadas, freadas bruscas, má educação em geral. Quando ultrapassados, tomam como ofensa à honra e tentam recuperar o posto a todo custo.
- Sapiranga: não reconhecem os limites da estrada, já que quase não há ruas regulares na própria cidade onde vivem. Mestres em cortar e "chegar primeiro".
- Ivoti: parecem sob efeito de algum alucinógeno. Totalmente imprevisíveis.
- Gramado: querem te atropelar com os carro$, porque consideram todos os outros motoristas inferiores sócio, econômica e moralmente. Só olham para a frente, ignoram os lados. Fazem "carão".
- Taquara: delinqüentes ao volante. Uma mistura de capilés com canoenses. Não andam armados, mas têm arma em casa e são "entusiastas".
- Dois Irmãos: como Ivoti, mas costumam frear bruscamente com mais freqüência. Juro que ainda tento entender por quê.
- Nova Hartz: se não for um trator ou coisa assim, parabéns! Encontraste um "motorista" de Nova Hartz. Ligeirinhos esses.
- Três Coroas: nem parece que têm na cidade um templo budista. Apressadinhos.
- Novo Hamburgo: dublês do JackAss, sempre tentando fazer uma coisa impossível com o carro. Muitas vezes conseguem.
- Estância Velha: estão sempre indo para Estância Velha.

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Quando a música dos outros te tortura (...)

De um de meus RSSs preferidos. Daqui:
 
 
 
http://mtv.uol.com.br/evocecomisso/blog/quando-música-dos-outros-te-tortura-o-que-é-que-política-tem-ver-com-isso
 
 
 
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Qual é o limite entre música e incômodo? E o que a política tem a ver com isso?
 
Hoje, por mais de uma hora e meia, um carro de som de uma rádio ficou na minha rua vomitando música a todo volume. Ora, caso eu queira ouvir a rádio, eu sei ligar o rádio, botar um fone e girar o botão. Perguntei ao motorista se ele estava a fim de levar uma multa, e ele deu de ombros. Sua defesa era a mesma que os executores nazistas usaram quando julgados após a Segunda Guerra Mundial: apenas cumpria ordens.
 
Parti atrás de quem pudesse multar a rádio. Tava triste mesmo a coisa.
 
Primeiro a prefeitura, que incluiu na lei contra a poluição urbana provisões que salvaram nossos ouvidos das pamonhas de Piracicaba e dos morangos de Atibaia. Liguei pra lá (156) e tentei fazer uma denúncia. Não dava: além de o Programa de Silêncio Urbano (Psiu) só se referir à barulheira da noite, eles levam de 1 a 30 dias pra mandar um fiscal, e portanto a lei só se aplica a estabelecimentos que abusem da paciência dos vizinhos todo dia. Ou seja, a prefeitura é completamente inútil nesses casos. O que fazer? A mulher sugeriu ligar pro 190, da Polícia Militar.
 
Só que tem o seguinte: no Brasil existem leis municipais, estaduais e federais. Quem é encarregado de fazer cumprir uma não tem obrigação de fazer cumprir outra. Em parte por isso é que tem tanto buraco na rua: se o buraco foi feito pela empresa estadual de água, a prefeitura não aceita solicitações pra fechar. Assim, a Polícia Militar não tem entre suas atribuições ir atrás de traficantes internacionais de drogas (lei federal) nem fazer valer a lei contra poluição sonora (lei municipal).
 
No caso específico do carro de som, a polícia podia autuar os caras por perturbação do sossego. É o mesmo enrosco pra investigar e autuar, mas pelo menos um PM bater na janela do carro faz mais efeito do que eu chamar a atenção do motorista. E parece que deu resultado: minutos depois de eu ligar pra PM, parou o som.
 
Você já notou o quanto a música imposta pelos outros anda onipresente?
 
Música é um negócio muito legal, certamente. Mas o que pra mim é genial pode ser tortura pra você. É uma questão de respeito.
 
O Exército americano sacou isso há muito tempo, e usa a música em suas operações psicológicas (vulgo “psy-ops”). No filme “Apocalypse Now”, é clássica a cena em que o coronel Kilgore bota a Cavalgada das Valquírias nos helicópteros pra tocar o terror nos vietnamitas. Mais recentemente, há relatos de que acusados de terrorismo presos em Guantánamo foram forçados a ouvir a todo volume, por horas a fio, as mesmas músicas do Rage Against the Machine e do dinossauro roxo Barney. O Trent Reznor, do Nine Inch Nails, já protestou contra o uso de músicas da banda pra torturar gente.
 
Mesmo sua música favorita pode virar tortura se for imposta a você por outros, durante horas a fio. Mas quando é a dos outros é ainda pior. Há alguns anos, morei numa pensão ao lado de um bar cujo dono se apaixonou pela música “Morango no Nordeste”. Todo sábado ele punha pra tocar no repeat, a todo volume. Um conhecido meu certa vez constrangeu sua ex-mulher e a mulher atual ao tocar num churrasco, no repeat e a todo volume, um pagode que diz “tô fazendo amor com outra pessoa, mas meu coração vai ser pra sempre seu”.
 
No supermercado, tem a seleção da casa. No elevador, idem. Até pra tomar uma cerveja a gente está exposto aos mesmos sucessos de trilha de novela impostos pela Ordem Universal Acústica dos Tocadores de Violão de Boteco. (Antes de vir pra MTV, meu xará Marcelo Adnet fez uma participação no programa “Cilada” sobre as roubadas dos barzinhos. Ele dizia: “Muito bem bolado! O cara já tocou QUATRO do Jorge Vercilo!”)
 
No ônibus, sempre aparece um deserdado da noção com o celular tocando música no alto-falante. Aliás, o cara que inventou o alto-falante de celular bem que merecia ouvir “Morango no Nordeste” em Guantánamo. Por um tempo, andei com fones baratinhos na mochila pra dar de presente. Depois desisti: tenho barba e pança, mas não tenho saco pra fazer papel de Papai Noel.
 
E os políticos com isso?
 
Ora, são eles que permitem ou deixam de permitir qualquer coisa que interfira no espaço público. A função básica da política é criar as regras básicas de convívio entre seres humanos. Faz tanto tempo que a política pela política seqüestrou essa função que a gente até esquece dela.
 
O principal problema, no meu ponto de vista, é que com essa fragmentação toda a gente fica sem ter pra quem reclamar eficientemente. E aí, o pessoal faz o que quer mesmo. Assim como os políticos continuam fazendo o que bem-entendem se sabem que a gente não está de olho.

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E-mail engraçado que recebi.

Veja só um trechinho (adendos meus em colchetes):
 
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Prezado internauta [ Os anos 90 estão chamando FORTE ],
 
Observamos que você utilizou as redes sociais para relatar sua experiência com produtos e serviços. [ De que jeito? Stalking? ] Por conta disso, tomamos a liberdade [ SPAM ] de convidá-lo para participar do primeiro grande estudo sobre os hábitos dos internautas brasileiros. [ Que mentira. Não é o primeiro estudo. ] O estudo vai ajudar as empresas em todo o Brasil a compreender melhor a importância de se usar este canal de comunicação [ Qual? A Internet? A 'rede social' em que vocês me 'observaram'? ] para se comunicar e se relacionar com consumidores como você.
 
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No rodapé, o sufixo safado:
 
 
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E-mail enviado de acordo com regras de Boas Maneiras em e-mail marketing da ABEMD: http://www.abemd.org.br/AutoRegulamentacao/BoasManeiras.aspx
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Porcaria nenhuma. É SPAM do mais grosseiro. Note as premissas safadas do documento de "boas maneiras":
 
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Opt in.
O primeiro recebimento é muito importante, porque marca o início da relação. É preciso ter permissão para prosseguir o relacionamento, por meio do opt in do receptor, tanto quando ele procura como quando é procurado. [ Coisa que não houve ]
Quando é a pessoa quem procura a empresa, o campo onde é feita a opção pelo recebimento da mensagem deve estar visível e com descrição clara do produto ou serviço oferecido.
Quando é a empresa quem procura a pessoa, [ id est, SPAM ] tratando-se do primeiro contato deve-se informar como foi possível chegar a ela, [ não aconteceu ] explicitar o produto ou serviço oferecido [ não aconteceu ] e apresentar de forma visível a alternativa opt in. Se a pessoa não responder o e-mail com essa alternativa assinalada, deve-se entender que não deseja receber novas mensagens. [ não acontecerá ]
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Se isso não é a definição perfeita (com carinha de inocente, inclusive) de SPAM não sei o que é.
 
 
Saudades do "museu do SPAM".

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