Fernando’s posterous

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Eu e os Macs

Senta que vem história. Again.

Em outras oportunidades contei que tive meu primeiro contato com computadores através duma máquina UNIX. Com as máquinas Apple foram em dois momentos: um com um Apple II "feito no Brasil" (que era dum colega de aula no primeiro grau e que de vez em quando deixava fuçar) e com Macs de agência de publicidade fundo-de-quintal (geralmente Quadras e os primeiros PowerMac).

Eram máquinas pesadas, barulhentas, beges, cheias de não-me-toques. Tinham o atrativo de terem um sistema que funcionava como uma alma própria (inclusive com auto-arbítrio; quem usou por um tempo o Mac OS clássico sabe disso).

Meu primeiro Mac em termos de propriedade não foi um Mac. Foi um programa que rodava binários de MacOS 6. O programa não "existe" mais no sentido prático, mas foi o primeiro contato com alguma coisa que lembrasse o MacOS. Chamava-se Executor, feito por uma empresinha fundo-de-quintal chamada ARDI. E rodava bem certos programas, alguns jogos (principalmente os já antigos, tipo Prince of Persia), editores simples, algumas ferramentas de programação -- tudo sem precisar do Mac em si.

Lia inclusive volumes HFS, contanto que você pudesse ter um drive SCSI no seu PC. CD-ROMs para Mac também. Como o emulador rodava sobre DOS (embora tivesse versões para NeXT, Linux, etc.), bastava fazer uma "carga alta" do driver SCSI da Adaptec 15xx (a placa que eu usava) que tudo ficava bem. Pedi emprestado a um amigo um drive com alguns programas, e os 10% que rodavam chegavam para saciar a curiosidade.

Então, ao mesmo tempo em que eu fazia um duplo-boot para alguma versão de Linux, já rodava programetes antigos do System 6 e System 7. Isso foi até 1997, quando descobri o vMac, um emulador de Mac Plus/Mac 512. Depois de grandes peripécias para conseguir a ROM (hoje em dia é tudo muito fácil, uma buscada do Google te provê todas as ROMs feitas para tudo quanto é coisa), quase apelando para o método físico, consegui bootar o System 6 e rodar, daí, todos os programas que eu queria, num Pentium, com velocidade análoga ao Mac Plus.

Não demorou muito tempo depois e outros projetos de emuladores estavam surgindo. Mesmo nesse período eu desenvolvendo coisas para Windows para sobreviver, em casa o grande motivo de rodar Windows era rodar um que outro emulador. O que desempenhava melhor era o BasiliskII (que ainda existe e é utilizável), e que consegue rodar hoje em dia até o Mac OS 9 (até onde eu saiba).

Em 1997/1998 aconteceu uma sucessão de fatos que fariam minha curiosidade aumentar em torno da plataforma mais ridicularizada (e, talvez, a mais elitizada) no Brasil. Um, que a NeXT tinha comprado a Apple (nunca acreditei em boatos contrários :) ). A outra coisa é que o MacOS tradicional iria virar apenas uma camada de execução -- um "daemon" -- do NeXT. Acompanhei o NeXT desde o final dos anos 80 nas revistas especializadas; parecia tudo muito surreal e impossível, tanto do ponto de vista tecnológico como mercadológico. Sem contar que seria fácil de ter acesso ao novo sistema "híbrido", era só ter um G3.

O G3 (processador, computador, geração, chame do que quiser) foi o resgate da Apple. Era um processador que rodava em clock relativamente alto, rápido, com arquitetura de motherboard limpa, tentando eliminar aos poucos o legado "anos 80/90" do Mac. E a Apple criou um sistema de vendas diretas nos EUA, que permitia o cidadão escolher a configuração exata do equipamento (mantendo-se a placa-mãe, obviamente). Em termos de negócio de computador, a Apple continua a mesma: uma coisinha especial numa placa-mãe, com um sistema que se obtém com "venda casada" e que interage com o hardware como se fosse feito para ele e vice-versa. Meia-dúzia de configurações, com drivers conhecidos, e um sistema relativamente estável. Segredo da ressurreição.

Eis que veio o iMac. O iMac também mudou tudo, mas no sentido estético da coisa. Fora beges quadrados, entram coloridos redondos (para depois ser transparências, seguido de branco hospitalar, depois aço escovado, e agora "cara-de-tv-de-plasma"). Um computador praticamente sem legados em termos externos. Preço ridiculamente baixo, mesmo comparando com um PC. Como ainda estávamos em época de "bolha do Real", o Real estava artificialmente valorizado, ainda na faixa da paridade com o dólar. Cheguei a comentar em casa: "vamos juntar uma grana e comprar esse negócio aí".

Afinal de contas, "esse negócio aí" tinha CD, som, USB, modem, ethernet, tudo incluído. E em questão de um ou dois anos rodaria UNIX. Já se conseguia rodar Linux (como mais tarde fiz com outros PowerPCs).

1999 chegou e o dólar explodiu. Com ele veio uma crise muito pior do que esta que aconteceu (pelo menos no Brasil). Não eram só os Macs que ficaram inacessíveis: tudo ficou inacessível.

Mas eu consegui fazer um rolo no fim-do-ano e comprei de um amigo um jurássico Quadra 605 (que funciona até hoje, apesar do HD ter morrido). Foi o primeiro Mac que eu pude chamar de "meu", pra ficar no chavão. Como ele tinha uma porta serial, eu consegui fazer uma gambiarra para fazê-lo acessar a Internet (don't ask). Netscape 3 Gold nunca rolou tão bem na tela (os emuladores eram bacanas, mas a parte de gráficos ficava a desejar -- porque era emulação, e nem com JIT gráficos rodam mais rápido em software do que em hardware real, todo mundo sabe disso). Ficou uma coisa estranha: nos benchmarks os emuladores surravam o Quadra 605 em quesitos de processamento, mas apanhavam feio em gráficos.

O Quadra 605 tinha um 680LC40. Acho que é esse o nome, nem vou verificar. O LC significa "Low Cost". Que significa que "floating point" não tinha. A solução era rodar coisas que exigiam "floating point" em software, o que basicamente reduzia a velocidade dessa parte do processamento dos programas em 150%. Em 25 Mhz até sopro fazia diferença.

Em nem três meses depois comprei via MercadoLivre um PowerMac 8100, 110 Mhz, 48 de RAM, vários gigas de disco, ethernet (que tive que comprar um transceiver de R$ 50 para colocá-lo em par trançado), e um sonzinho embutido melhor do que o Quadra (já dava para colocar num aparelho de som de certa responsa). E já conseguia tocar MP3. Mas eu já tinha o meu Pentium nessa época; então um acabava ficando servidor do outro, e a minha (conhecida) pendenga de colecionar computadores meio que começa por aí.

Sabia que estava "defasado" em termos de software com essas maquinetas (o 8100 rodava até o MacOS 8.1 e só) mas não me importava muito. Ora, o UNIX é um sistema de 40 anos de idade; não há de fato muita inovação na nossa área. E a internet era bem mais neutra em termos de "barreira de entrada", ao contrário do mundinho hipster da Web 2.0, que exclui o usuário cada vez mais (e ele gosta!).

Nesse interim -- até que o Mac OS X "for consumers", a versão não-server, fosse para 1.0 -- eu aproveitei para testar, usar, adequar e crashear todo tipo de software para Mac possível. Não me interessava muito coisas estilo Photoshop ou Quark, porque meu negócio mesmo era desenvolvimento e redes, essas coisas que ninguém consegue fazer ao mesmo tempo. Nunca vi muitas graças em certas piratagens também: a maioria do pessoal que pirateava os "grandes softwares" acabava nunca usando mesmo. E espaço em disco não era o mato que é hoje, era um quintalzinho.

Daí para comprar um iMac foi um pulo. Os primeiros modelos já tinham lá seus dois (para três) anos, e já estavam surgindo upgrades de 400 Mhz. Os de 233, então, já estavam sendo "possíveis" de serem comprados por R$ 1200 (preço que era de 2008, que tristeza). A parte interessante/mais ou menos boa é que R$ 1200 de 2001 e R$ 1200 de 1998 não valiam os mesmos mil e duzentos. Em 2001 (como hoje) vale menos. Hoje é quase nada, pra todos os efeitos.

Novamente usei do MercadoLivre para comprar o iMac. Como na época o site tinha na grandiosa maioria gente séria, a transação ocorreu sem o menor dos problemas. O computador chegou inteiro via VaspEx (que está aí, agonizando devagarzinho) e, numa noite, instalei o mundo. Naquela semana, antes de vir o OS X via correio, ele rodou OS 9 muito bem. E como rodava bem. Nunca mais liguei o Pentium (exceto para limpar as coisas dele e vendê-lo).

Era outra coisa rodar os scripts do MPW (e compilar os programetes em Pascal/C) em questão de um, dois segundos e não dezenas de segundos a minutos.

Na primeira semana de Mac OS X já tinha instalado (na mão, porque não havia sistema de ports) o PHP, um novo Apache, PostgreSQL, Python, essas coisinhas com que já havia me acostumado. Java já estava lá, era só rodar. Na época do Mac OS X 10.0/10.1 as coisas eram difíceis comparadas com hoje; mas na época era bom o suficiente. Tudo via modem de 56k.

E o tal iMac tinha iTunes. E o iTunes era bom (não esse bloatware que é hoje). E rodava DivX. E todos viram que era bom.

O Mac OS X era pesado; você notava as coisas acontecendo por trás dos panos. Isso nos G3s; nos G4s a coisa tava bem mais avançada, mas como o dólar explodiu e nunca mais voltou, só consegui comprar um G4 em 2005 (quase no túmulo do PowerPC).

Logo depois veio o primeiro "grande update" (ou "serviço quase-obrigatório de proteção da máfia", se você preferir), o tal Jaguar. Eu até tinha conseguido o Jaguar pro G3, mas decidi comprar um iBook (em trocentas prestações, etc. -- lembre-se que havia uma crise permanente no Brasil e que o valor era alto). O iBook já vinha com o bicho. Passei um ano inteiro com o iBook embaixo do braço, literalmente como um caderno. Era praticamente uma extensão do corpo.

Em 2003 descobri que todos (aka. 100%) os modelos tinham defeitos na placa-mãe, e que em questão de meses iriam se desmontar. Foi o início do fim da qualidade da Apple. Qualidade marromeno que continua até hoje, mas ainda é melhor que as linhas "populares" da concorrência. Nem tão melhor, vale a pena frisar.

Foi uma desilusão grande. Não que eu tivesse sido muito afetado; apenas ganhei desapego (não foi nem de perto como outras perdas que tive na vida). Vendi o iBook por quase nada, mas o suficiente para eu montar um computador "from scratch", como há muitos anos não fazia.

Que, aliás, foi uma decepção atrás da outra. Comprei AMD, e a AMD estava nessas de usar engenheiros semi-escravizados, só pode. Ou departamentos de QA que só ganhavam milho, essa era outra possibilidade. Resultado: um combo placa-mãe+processador que aqueciam e queimavam. Pelo menos rodava FreeBSD numa máquina bem mais rápida que um Mac, o que era um certo conforto (no sentido de praticidade de uso).

Não deu certo por outros motivos também, não importam agora (é melhor esquecer). Logo depois comprei um G3 Blue&White, uma máquina já 5 anos defasada, mas que pelo menos não aquecia. Não aquecia e não fazia barulho. Eu até hoje acho que deveria ter processado a AMD por insônia causada por ventiladores de Athlon.

E o G3 300 Mhz, apesar de ultradefasado, rodava DivX bem, tocava o terror nos DVDs, e rodava Jedi Outcast porque permitia colocar uma Radeon 7000-sei-lá-quanto nele.

Depois veio outro G3 B&W, este de 450 Mhz; outro G3 Bege, este quase de graça; vários outros PowerMacs por preço de jujubas, sem contar outras maquinetas RISC com seus próprios Unices.

Mas estas são outras histórias.

Até que em 2008 cansei da "defasagem de velocidade" (vídeos HD estão aí, pô) e resolvi meter bala num Macbook sobra-de-estoque, daqueles brancos. E ainda fui com cara de bandido (roupa de usar em casa, barbudo, e pagando com cheque dobrado do ano retrasado, porque nunca uso cheque).

Deu certo. A máquina já se pagou só pelo aumento de produtividade. Aí me vi usando só o MacBook. E as outras máquinas?

Uma virou uma bicicleta; outra virou a máquina de outra pessoa; uma que outra eu doei, e o resto continua no "home office", de vez em quando sendo ligadas para uma ou outra brincadeira. Parafraseando João Lemos, "O Datacenter Acabou".

Mesmo depois de tantos anos de contato com a plataforma mais odiada do Brasil, ainda é estranho ver lojas que vendem Apple como eletrodomésticos, pessoas andando com Macbooks e iPhones por aí, podcasts sobre a religião que o mundinho Apple virou. Apesar do fanboyismo do pessoal recém-convertido (os recém-convertidos sempre são os mais fanáticos, pode notar), e da tentativa de Louis-Vouittonização da marca, vai por mim, é melhor agora. Quando era nicho-do-nicho era triste.

Poderia ser um desafio gratificante fazer um periférico não-compatível funcionar -- mas não era produtivo. Era caro. Era esmurrar em faca. Não é mais estranho usar um Mac para programar -- porque não é mais só o "computador dos artistas gráficos". Já dá até para declarar IR. Só não vamos tornar as lojas em boutiques, pelamor. Keep it real. E em Reais.

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Da minha saudade recorrente dos 8 bits

Senta de novo que vem história.

Era o final dos anos 80. Eu já sabia usar (razoavelmente) bem computadores, mesmo quase nunca tendo contato com nenhum (lembre-se, naquela época era artigo de luxo e, quando de tecnologia estrangeira, sob importação "alternativa"). Nessa época os PCs (e os primeiros Macs) já eram populares nos EUA, com arquiteturas completamente estranhas na Inglaterra e os "genéricos" nacionais. Poucos anos depois o Collor abriu o mercado e os computadores se multiplicaram feito ratos.

Mesmo com as dificuldades financeiras tínhamos planos para comprar um computador. Pra minha infelicidade (e posterior vantagem, daquelas que você só percebe anos depois, e acontecem por acaso) não era um modelo de 16 ou 32 bits: era um de 8 (MSX, já bem usado, na época comprado contrabandeado, mas agora passando de mão em mão). Tinha a vantagem de ligar na TV, então economizava-se o que hoje equivaleria R$ 1.200.

Também tinha outras vantagens: dava para usar fitas cassette, que já eram baratas e eu podia comprar com meu próprio esforço (nos "bicos" e nos primeiros empregos informais). Continuo achando fitas K7 superiores à disquetes, que hoje falham muito mais do que antigamente porque se usa menos material e a mão-de-obra é semi-escrava. Vale lembrar que quase todo computador (ou componente) fabricado hoje vem de mão-de-obra semi-escrava. O computador onde escrevo também é. Ninguém é mais santo, e não existem, a rigor, "indústrias nacionais".

Se o gravador controlado pelo MSX falhasse e um "ajuste no azimute" (IIRC) fosse necessário, eu nem perdia tempo: colocava a fita num microsystem "anos 80" e colocava o cabo P2 computador nele, que lia perfeitamente. E ainda dava para ouvir o som mais alto. É um som parecido com os de modem, e as lembranças do som são agradáveis (mesmo que eu tivesse que, às vezes, esperar 20 minutos para um programa carregar).

O intuito de comprar o computador era óbvio: é o que hoje chama-se de "inclusão digital" -- familializar-se com a digitação no computador, criar programas, dominar os meandros da máquina, melhorar o uso da lógica, etc. (ah, "inclusão digital" hoje é orkut, fotolog, msn, e baixar sacanagem? Foi mal, pensei que era uma coisa séria).

Deu certo. Acabei aí ganhando uma profissão. Não era a profissão que eu esperava, subestimamos demais a coisa (estávamos numa crise braba, pré-Real, e eu almejava no máximo um cargo de "operador de computador" em algum lugar, porque era um trabalho que não se sujava as mãos, não precisava fazer esforço e dava para sobreviver -- mas só sobreviver). Sem contar que o contato com o computador me aproximou do Latim da nossa época, o Inglês. Foi um benefício duplo.

Ou múltiplo: o Inglês é uma "gateway drug" (para ficar no anglicismo) que te leva para um mundo de literatura mais universalizada, ampla, onde sempre há tradução de títulos, e onde há possibilidade de se aprender outras línguas através dele como "pedra de Rosetta".

Aliás, também subestimei os danos que a profissão ia me trazer. LER, insônia, problemas posturais, lapsos bobos de memória... boa parte disso foi corrigido a tempo. Mas na época era normal eu ficar transcrevendo/debugando programetes em BASIC até as duas, três da manhã; raras eram as vezes em que eu virava a noite, mas acontecia e a alegria de ter um programa funcional superava a ressaca do dia seguinte (que era o mesmo dia).

Foi largamente através de imitação (macaco vê, macaco faz) que aprendi a programar. Tanto no assembly (hoje primitivo) do Z80 como no BASIC. No assembly eu ainda imitava bastante até o final da minha época de MSX, mas no BASIC eu já conseguia ousar mais.

Ousar mais e enxergar logo os limites: na minha primeira tentativa de fazer um programa interpretador de comandos (um DOS da vida) eu alcancei rapidinho os 22k de RAM, todos consumidos pelo programa. Foi engraçado, embora tivesse me preocupado na hora: o prompt não aceitava mais uma linha do programa, e dizia que estava "out of memory". Custei a acreditar. Foi quando dei um LIST (IIRC) e vi que tinha programado demais. Como tinha que sacrificar a legibilidade para ganhar alguns bytes, tentei eliminar os espaços primeiro (dá para programar em BASIC no MSX sem usar espaços. Fiz isso por alguns meses, o que me preparou anos depois para o Perl e o PHP). Não adiantou muito. Tive que otimizar e -- gasp! -- criar um sistema de código que poderia se auto-gerar.

As revistas da época (e de épocas passadas) como INPUT, MicroSistemas, etc. era o que me pautava. Ganhei algumas com o próprio computador; comprei outros fascículos da INPUT (na época dificílimos de se achar) para ir acompanhando os programas. De INPUT, ao todo, foram 20 fascículos. Nem imaginava que tinha muito mais, e que anos depois eu conseguiria achar boa parte deles (senão a totalidade) na biblioteca da Unisinos. Se eu soubesse eu teria pego o ônibus para São Leopoldo semanalmente ainda criança!

Ao trabalhar com um computador com sérios limites você é obrigado a otimizar o programa. Tanto porque uma instrução a mais pode fazer o programa demorar cinco minutos a mais, como a memória era uma parede rígida num quarto pequeno. Ouvia falar em expansões, em modelos de MSX que possuíam muito mais RAM, inclusive já tinha visto modelos com disquetes de 5 1/2 e 3 1/4, mas era tudo muito caro e inacessível. E os PCs já estavam aí, e às vezes eram tão inacessíveis quanto.

Acabei descobrindo o conceito de currying, macros, linguagem de domínio restrito, e, talvez, lambda calculus -- sem querer, por necessidade, e sem saber direito o nome da técnica que achava que tinha "inventado". Eram idéias antigas com implementações moderníssimas de 40 anos atrás. Bummer.

Também, por não estranha razão, comecei a gostar de Promenade, do Mussorgsky. Tinha descoberto a música via computador, mas, em retrospecto, até que foi bom que não enveredei por este lado -- é um passatempo caro este de fazer música (sim, é uma desculpa).

Me ocorreu de fazer compactação do código, mas na primeira tentativa (após ler sobre o assunto, e, já que eu usava lha/pkzip/etc.) a RAM se provou limitada demais para construir o próprio programa de compactação. Na verdade estava imitando o estilo de programação contemporâneo, que já usava de máquinas sem limitações toscas na casa dos 20 kbytes.

Mesmo assim, consegui achar um que tinha uma ROM 1.2 (melhorada se comparada com a 1.1 que eu tinha) e tinha um drive de disquetes que podia ser acoplado a um dos cartuchos! Foi uma revolução pessoal, mais ou menos quando eu consegui comprar um gravador de CDs. Finalmente os dados e os programas poderiam ser criados em muito menos tempo, e ter uma "mortalidade" menor (portanto, serem mais próximos da "imortalidade").

Converti todos os programas, o mais rápido possível, para o 'modus operandi' do disquete. Já tinha uma GUI primitiva rodando, que imitava o System 7 do Mac em look (mas nada do feel, porque eu sequer tinha mouse, operava com um joystick). E de repente descobri alguns conceitos de double-buffering (mesmo não conseguindo implementar por completo), bitmapping (sofrendo horrores no assembly), sprites compostos -- tudo por acaso e por necessidade. Tempos depois, quando vi o X, conseguia entender (ou imaginar) como que era implementado (inclusive as desvantagens).

Comecei a implementar um banco de dados. Nada relacional, como se tem hoje prontinho para usar, mas mais uma espécie de DBase. Era fã da idéia do DBase, mas odiava (ainda odeio) com profundeza a linguagem totalmente enjambrada, e o jeito de construir programas (e as limitações do DOS, que pareciam ainda mais arcanas num hardware muito mais potente que o PC do que os programetes do tosco MSX).

Aliás, faço um parêntese para inferir que a cultura baseada em DOS/automação de empresinhas/Clipper/DBase/pirataria desmensurada ajudou muita gente a sobreviver mas destruiu a necessidade de vários dos aprendizados da ciência da computação no dia-a-dia dos informatas. Destruiu e criou preconceitos, inclusive um clima de anti-intelectualismo forte. Mas essa é outra história, para outro dia.

Nas primeiras versões do programa -- quando estava criando uma automação para criar a GUI automaticamente através do que havia no banco de dados -- o drive de disquetes pifou.

Decidi arquivar tudo em um lugar à prova de luz, mas que se revelou absorvente de umidade -- e assim perdi todos os programas que tinha construído. O bolor destruiu os disquetes. Como as fitas tinham sido usadas para música (eram baratas, mas ainda custavam dinheiro), então não havia backups. Nasceu aí o Fernando neurótico e obcecado por backups.

Mas esta é outra história.

Às vezes fico pensando -- e não consigo ter uma opinião 100% formada a respeito -- sobre o estado da computação hoje, onde todos os computadores são facilmente programáveis, e todas linguagens (as importantes e interessantes, pelo menos) disponíveis sem custo, com farto material em todas as línguas principais. Ao mesmo tempo vejo gente fazendo tarefas que são, de um ponto de vista, programação -- mas ao mesmo tempo percebo que a evolução no software tende a ser só aparente, já que só se faz mais do mesmo.

Caio às vezes no pensamento fácil de que "antigamente que era bom", que invariavelmente cai na premissa "se os computadores tivessem certos limites seria melhor". Aí depois eu me toco da bobagem e volto a movimentar meus castelos-de-carta digitais, que só existem na minha cabeça, e são como se fossem minha própria Matrix. Não troco esse tempo por outro passado, não. Essa falta de evolução aparente vai passar, deixa só o legado do PCzismo dos anos 80 acabar.

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Minha mania com as duas rodas.

Senta que vem história.

Geralmente toda coisa em que se desenvolve uma obsessão não é saudável. Aliás, prefiro dizer que não é, mesmo que seja. Sendo assim, estou sofrendo de uma compulsão nada saudável sobre bicicletas.

Até agora tem sido saudável: não sinto aquela dor pós-exercício que dura alguns dias; não tenho mais hematomas em diversas partes do corpo; não há tanto suor nem desconforto em subidas; principalmente, consigo realizar subidas que não conseguia fazer de jeito nenhum.

O ruim é que eu não consigo manter só um "equipamento" para realizar as "corridas". Comprei uma bicicleta, depois outra, depois outra. Troquei peças. Torrei um dinheiro bonito (ainda que pouco perto dum modelo qualquer dito profissional) trocando peças e consertando pneus, aros, câmbios. Mas é uma coisa que dá um prazer inigualável (dentro do que se refere a esporte individual, que fique bem claro).

A obsessão toda começou uns dois anos atrás. Tinha uma bicicleta daquelas que se compra em mercado hoje em dia por menos de R$ 200 (mas que na época, 1996, custou bem mais; uns R$ 450, quando R$ 450 valia dinheiro. Não é que o dinheiro agora compra mais coisas: é que os materiais ficaram tão baratos que míseros R$ 200 (que não valem nada) conseguem comprar uma bicicleta). Era uma mountain bike. Usei ela extensivamente de 1996 a 2000.

Em 1999/2000 eu usava para a comuta trabalho <-> casa. Era chato, caro, demorado, desconfortável demais pegar ônibus. A distância de casa até o trabalho era 3 km, sendo que no meio havia um morro de inclinação considerável (o "pesadelo da volta"). Mesmo sendo mountain bike eu não conseguia subir o tal morro. Em 1996 eu pesava 67 kg; em 1998 já pesava 75; depois duma breve incursão em um hospital pulei para 85; e, quanto mais o peso aumentava, pior ficava para subir o tal morro.

Mas o fôlego (para o resto) eu mantive. Até 2000. Aí eu já estava na universidade, e vida de universitário não é saudável. Não pode ser saudável, senão não tem graça.

Corta para 2007, e me vejo me mudando para uma cidade onde todo mundo tinha pelo menos uma bicicleta (mais de uma bicicleta per capita). Então eu ressuscitei a maldita mountain bike genérica e, bem de vez em quando, saía com ela nos fins-de-semana. Nada sério.

Explico o "maldita". Nos anos 90 (final dos 80, na verdade), o Brasil sofreu a invasão das "mountain bikes": bicicletas pesadas, que supostamente serviriam para andar nas montanhas, em terrenos inóspitos, etc.; ocorre que a tropicalização da bicicleta não deu muito certo para a manutenção do conceito "montanha": as bicicletas eram toscas, quebravam só de deixar sob o sol, e se você se arriscasse nas montanhas, era acidente certo.

Em suma, eram boas para trafegar nas cidades sem nenhum planejamento que o Brasil tem. E eram baratas o suficiente para que (quase) todo mundo pudesse comprar. Então se convencionou assim: jovens usam as MTBs, pessoal mais velho e "operário" usava variantes de Barra Forte (aquela bicicleta desconfortável e insegura, mas que dura bastante e não deve custar mais de R$ 40 para fabricar).

Houve mini-tendências ao longo dos anos 90 em termos de acessórios; todas as tendências passaram. Hoje essas MTB têm cara de Transformers (o filme novo), e um quê de cultura emo. Pode notar.

Nada disso impediu que as MTBs se popularizassem. Nem a destruição do conceito de bicicleta de montanha e a necessidade de ter um modelo mais adequado às cidades (que acabou acontecendo, mas são caras que só vendo). E agora começam a pipocar variações "chopper" baseadas em MTBs. Terrível; é um negócio que já nasce com data para terminar (assim espero).

Mesmo sendo (aparentemente) mais confortáveis que outros modelos, acessíveis e ganhando todas as inovações do ramo (freios a disco, suspensão, câmbios práticos, etc.) eu não conseguia me sentir confortável pedalando com elas. No início eu pensei que era a altura do selim ou coisa assim. Não era. Eu é que era incompatível com as bicicletas.

Me lembro de ter, de empréstimo, uma Caloi 10 dos anos 70 por alguns minutos; isso no meio dos anos 90. Eu quase tinha minha altura atual, mas mesmo assim era difícil de manobrá-la, era rígida, precisa; muita curvatura e eu quase caía; não dava para andar devagar; a correia caía fora se eu ousava muito na troca de marchas. O que me fascinava era o guidão "multiuso" (umas quatro posições diferentes podiam ser usadas ali) e as dimensões magricelas do quadro e pneus.

Essa fascinação ia me "procurar" depois.

Em 2008 eu decidi viajar para um lugar onde se poderia pedalar com o auxílio da lei (porque o trânsito daqui é assassino com a complacência da lei; o efeito oposto). Então fui lá e comprei uma bicicleta que até hoje não sei a marca nem o modelo, mas era uma "speed" adaptada. Foi amor à primeira curva (pra não dizer "vista"). Rodava tão confortavelmente quanto as "omafietsen", com a diferença de ser rápida a ponto de alcançar os trams.

Praticamente destruí a bicicleta de tanto andar. Tive que deixar lá; imaginei que, ao chegar por aqui, a Gol ia querer me cobrar praticamente o valor da bicicleta para transportá-la (eu não estava muito fora da expectativa não; parece que custa uns R$ 200).

Poucas semanas depois vi uma Caloi 10, novo modelo, numa loja de bicicletas. Na real estava interessado naquelas scooters elétricas, mas a visão da bicicleta ocupando toda a vitrine -- montada, pronta para usar -- fez eu desistir da scooter na hora. Perguntei quanto era e nem pensei: fui no banco, quebrei o porquinho, comprei à vista. Acabou não sendo a da vitrine; foram duas horas longuíssimas até que outra, direto da caixa, estivesse pronta. Ao chegar em casa começou a chover; mas no outro dia eu tirei a desforra.

Uma das melhores compras que eu já fiz. Pelo benefício, não necessariamente pelo produto. E como a desgraçada anda. Noto que os motoristas não gostam nem um pouco da competição.

Depois de alguns meses de uso diário, o desgaste foi inevitável. A ponto de trocar o cubo traseiro, várias câmaras, e pelo menos uma roda.

Eis que um amigo (Ari Jr., que agora deve estar em Portugal) revelou que tinha, paradinha, uma Caloi 10. Fui ver, e era o modelo antigo. Dei um jeito de levá-la alguns dias depois, e, ao voltar de noite de Gramado, fui pedalar madrugada adentro. Minha surpresa: o modelo antigo era realmente muito melhor que o novo. Parecia que tinham adivinhado o tamanho exato do quadro.

Um ano passa, e eu deixo de andar diariamente, para apenas andar nos fins-de-semana (corrija-se: praticamente todo fim-de-semana, quase que religiosamente). Para compensar os 14 km diários, a cada fim-de-semana faz-se uma corrida maior (geralmente cruzando cidades, ou as rodeando). As chuvas aparecem junto com o inverno, e há vezes em que eu vou andar mesmo chovendo.

Poucos meses depois, me vejo andando por São Paulo, e na rua da FNAC Pinheiros vi uma Caloi 10 (1984, com adesivos Mondrianescos) por apenas R$ 300. "Pechincha", pensei. Era. Desbravei horrores no trânsito horroroso de São Paulo por alguns dias. Era a liberação do táxi, do ônibus e do metrô. E nem achei os motoristas tão agressivos como dizem (talvez estejam se acostumando com as 300 mil bicicletas em circulação na capital de facto do Brasil).

Consegui trazê-la para casa, depois de manobra logística de certa complexidade. É o novo cavalo-de-batalha: já quebrei o câmbio original (em "lance de bola parada"), modernizei os aros e rodas, entre outros reparos menores. E neste fim-de-semana foram dezenas de km com ela.

Abaixo (se o Posterous colaborar) o modelo antigo e o novo. Não necessariamente na mesma ordem.

   
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Minha_mania_com_as_duas_rodas..zip (1203 KB)

Não sei se eu as trocaria por modelos speed mais novos (e mais caros). Acho que não. Por alguma estranha razão, a sensação de liberdade que essas "magrelas" rígidas e aparentemente burocráticas dos anos 70 trazem não se igualam nos modelos de hoje; pelo menos não nos nacionais. Talvez haja uma marca estrangeira que me agrade, mas não estou disposto a pagar para ver.

Percebi de uns tempos pra cá que esse amontoado de ferro e alumínio (com pequenas porções de inox) é o que está me mantendo vivo; dando motivos para eu continuar seguindo os próximos objetivos, sejam quais forem. Pensei que era o contrário: que eu estava sustentando o "vício" das horas vagas, mas não, é a obsessão que tomou conta. E me sinto o próprio Robert Pirsig quando saio por aí meditando em duas rodas.

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