Fernando's posterous http://ferhr.posterous.com article repository; random thoughts posterous.com Tue, 30 Mar 2010 07:58:19 -0700 O primeiro Android a gente nunca esquece. Porque é caro demais pra deixar por aí. http://ferhr.posterous.com/o-primeiro-android-a-gente-nunca-esquece-porq http://ferhr.posterous.com/o-primeiro-android-a-gente-nunca-esquece-porq Um dos meus princípios é odiar telefones, essas maquininhas que falam. Mas tive que flexibilizar um pouco esse princípio, porque hoje em dia o que as maquinetas fazem de menos é falar; o negócio é tocar música, "aceder" à internet, e atormentar transeuntes. Como o que me interessa mais é estar disponível em "modo texto" em lugares distantes, fui atrás dum celular "espertinho" (smartphone).

(A história é um pouco mais vexante: cancelei minha linha no ano passado porque o celular tosco que eu tinha estava com a bateria arriada; e acabei perdendo o celular da mulher na saída de um pub. Então meio que fui "intimado" a resolver "o problema".)

A princípio não ia comprar um smartphone, mas um negócio que só falasse. Só que todos os modelos disponíveis pareciam "MP19" demais, ou com cores estilo Barney-na-floresta. Ou ainda estilo "ciclista de barra-forte". Estava praticamente desistindo, até que olhei para cima (em comércio, tudo que é mais caro fica acima): tinha um telefone da Motorola, com o tal Android, que estava por +- R$ 600. Fui ver como funcionava.

Depois de muita enrolação (graças aos diversos macetes possíveis de se fazer com o plano para ganhar desconto no aparelho) descobri que o valor real da peça era R$ 999. R$ 600 mas com plano "bola-de-canhão-no-pé" de tão caro. Aí fiz um meio termo, pedalei uma parte do cartão de crédito e o resto à vista.

O aparelho é um Motorola Cliq com um tal de Blur.

Ao chegar em casa eu começo a perceber as diferenças entre, digamos, entre o iPod Touch e um sistema Android.

A começar pelo hardware:

- Teclado físico para o Cliq. Isso faz uma diferença enorme em produtividade para mim, que nunca me senti confortável com o teclado a toque do iPod. Provavelmente no iPad a coisa toda seja melhor e mais precisa, apenas porque é maior. Algumas teclas, como a de pesquisa e a de símbolos são uma mão-na-roda (a troca de modos no teclado virtual do iPhoneOS resolve o problema do software, mas é terrível do ponto de vista da usabilidade).
- Botões a mais no Cliq que não fariam muita diferença. Tem um botão para voltar no Menu, tem um para aparecer um menu de contexto, tem um para iniciar a câmera, e outro para deixar "no mudo". Francamente, tudo isso poderia ser feito via software, e, ao manejar o aparelho, eventualmente se esbarra num desses botões. Desconto um ponto no Cliq.
- Saída de som absurdamente alta (comparada com o iPod). É um ponto positivo porque funciona, mas um ponto negativo no sentido... digamos... sociológico da coisa (imagine o quanto de abuso as pessoas sofrem diariamente por pessoas sem-noção que usam o telefone como boombox).
- Duração da bateria maior no Cliq. Provavelmente pela bateria ser mais potente, ela dura mais. Embora o Android tenha multitarefa e as coisas realmente aconteçam o tempo todo "debaixo dos panos", a bateria parece durar mais fazendo a mesma coisa. Isso é bom e de certa forma mostra que essa história de monotarefa que o iPhoneOS tem na interface é meio que uma desculpa para evitar que os usuários tenham que lidar com o aspecto negativo da multitarefa (aplicativos "muito loucos" que consomem recursos como se não houvesse amanhã).
- CPU mais veloz no Cliq. É notável a diferença de velocidade das CPUs, embora (IIRC) o software que rode no Android seja rodado sob uma VM. Claro que eventualmente os telefones/iPods novos da Apple vão compensar.
- O botão de desligar do Cliq, quando pressionado por poucos segundos, mostra opções para desligar antenas WiFi. Isso é positivo, mas eles poderiam ter colocado no "task manager". É fácil de acostumar com a idéia, no entanto.
- O iPhone é mais fino. Isso faz a diferença positivamente e também negativamente (mais fácil de perder, escorrega fácil, etc.); a robustez dos dois aparelhos é similar (ou seja, longe do ideal).
- Dá para trocar a bateria do Cliq. Pontos infinitos para a Motorola.
- WiFi mais potente/mais ágil no Cliq.
- A câmera do Cliq é ligeiramente inferior à do iPod, pelo menos à primeira vista. O engraçado é que o iPhoto reconhece legal a câmera do Cliq ao sincronizar (poderia ser assim com o iTunes, mas daí é exigir demais da Apple, não é?).

Já quanto ao software:

- Sistema de arquivos real no Cliq, tal qual um PC genérico. Você organiza do seu jeito, e sem riscos de apagar os dados caso se apague a aplicação. Grande vantagem de qualquer sistema Android. E nem gera tanta complexidade a mais assim.
- Sincronização impossivelmente simples no Cliq: é só plugar o cabo USB (ou baixar um daemon FTP/AFP/SMB) e colocar arquivos lá. Sem iTunes, sem proprietarismos infantis, sem "não funcionou desta vez". É como qualquer coisa que armazena dados e se conecta via USB deveria ser.
- O reprodutor de música do Cliq não é um iTunes "mobile" em termos de beleza, mas funciona a contento.
- O sistema de captura dos toques no touchscreen é bem mais afinado e preciso no iPhoneOS do que no Android. Às vezes é bem irritante.
- A scrollbar sempre aparece no Android. Isso é bom, e nem ocupa espaço (deve dar uns três pixels ao todo de largura, nem cheguei a medir).
- A "app store" do Android (o tal Market) tem vários aplicativos básicos que a Apple censuraria; em compensação a parte comercial não é tão forte, o que faz com que certos aplicativos bacanas mas pagos não estejam disponíveis ou sejam inviáveis. Isso é assunto para um artigo maior, mas pelo menos foi essa a impressão inicial.
- É mais rápido instalar bobagens do Market do que da App Store, embora a qualidade dos aplicativos seja menor em muitos casos. Isso reflete um pouco as prioridades dos desenvolvedores de cada plataforma, e é compreensível. Até agora não tem nada que não tenha precisado que não haja no Market.
- É mais fácil (e barato) colocar Doom no Android do que no iPhone. Pontos infinitos para o Android.
- Não testei executar vídeos no Android, mas promete ser mais compatível que o iPhoneOS, por motivos óbvios.
- Quanto ao Android 1.6, falta um esquema para configurar proxy. Sim, esse é o maior defeito que eu encontrei, e os caras merecem uma surra. Há aplicativos pra isso (!), mas não fui atrás.
- É mais fácil desenvolver para Android do que para iPhone. Em compensação, as ferramentas de desenvolvimento (ou seria "a" ferramenta?) para o iPhone são mais bem-acabadas e estáveis.
- Dá para colocar qualquer coisa como ringtone no Android. Não sei como é o iPhone hoje, mas não era assim.
- O sistema de gerenciamento de imagens do Android é esquisito e desnecessariamente complexo. Poderia ser uma coisa bem mais simples e rápida. Pelo menos funciona.
- Dá para filmar com o Android. Fica bacana.
- O "desktop" do Android é pequeno demais para conter várias coisas, mas é uma idéia bacana. Não sei como desativá-lo, porque prefiro outra maneira de interagir com o telefone (o "desktop" minimalista do iPhone é bem mais prático e preciso).
- O Android roda linguagens de script, como Python e Ruby. 'Nuff Said.

Não cheguei a ver coisas em 3D real, ou mesmo se os dois hardwares suportam. De qualquer forma não me importo muito. Se eu tiver mais tempo livre do que agora (duvido) talvez eu crie uns brinquedinhos para essa coisa aí (e provavelmente portar meu mini-unix feito em Python para ele).

De qualquer forma, a impressão final que fica é que o Android é um sistema aberto, pronto para receber diversos hacks; e o iPhone/i* é um eletrodoméstico, uma appliance.

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