Os profissionais mais importantes
Costumo brincar quando vejo um daqueles adesivos "agradeça um professor se consegue ler" (ou algo assim) porque aprendi a ler e fazer contas sozinho. Também não aprendi a ter senso crítico na escola (como boa parte das coisas que aprendi), mesmo porque era escola pública (e senso crítico em escola pública é concordar com o professor sempre; portanto ter senso crítico era pecado mortal). Só anos depois percebi que poderia ter sido completamente diferente, bem melhor, e destinando quase os mesmos recursos: não valorizavam quem capitaneava a sala de aula.
Hoje é um daqueles dias do calendário em que se lembra de uma classe de profissionais, ou uma classificação entre as pessoas. Não gosto de datas especiais nem dias fixos para lembrar de pessoas, porque no resto do ano elas não são lembradas. É o caso do dia do professor que, por óbvio, deveria ser feriado em todas as escolas (mas não é). Amanhã já vai ser esquecido, e tudo volta como era. Então vai um textinho. Discuto em meus próximos educação e ensino diariamente. De longe o ensino é a área mais negligenciada no país; a razão de todos os problemas que acontecem, apesar das peneiras multibilionárias que se usam para tapar o sol ou fazer chover boas intenções. Na minha visão de aluno (por mais de quinze anos) e por ver de perto como a coisa toda acontece creio que tudo deveria mudar. Tanto no ensino público como o particular. O ensino público primeiro, por ser o mais precário e por não ser auto-suficiente. Por ser deficitário. Sobre o particular eu tenho outras visões, que não cabem aqui. Se tem uma obra de "welfare" que realmente traz benefício é escola. Já encontrei gente que não é a favor das escolas públicas, mas sem elas estaríamos bem, bem, bem pior. Provavelmente seríamos uma ditadura das bananas. Não que a lei seja extremamente respeitada por aqui, mas imagine uma situação de guerra permanente, com gente morrendo nas ruas de fome, golpes infinitos, imprensa oficial estatal que só poucos conseguem ler ou onde se aprende a ler só para isso, etc.; seria por aí. Então nem passa pela minha cabeça privatizar o ensino básico e o nível médio. Não resolveria o problema, nem mesmo se toda a população tivesse condições de pagar. Algumas coisas mudaram no ensino público que o tornaram (ou tornarão) pior. O enjambre de "passar" o aluno adiante, para o próximo ano, a qualquer custo (para maquiar as estatísticas); a tentativa de reintrodução do ensino religioso (mesmo que seja facultativo); planos de carreira que a princípio parecem vantajosos para os professores mas ao longo prazo diminuem o valor real do salário; a criação de duas redes independentes de ensino público (uma controlada pelos estados, e outra pelos municípios, fazendo com que a corrupção e o pleno roubo fiquem mais difíceis de sofrer escrutínio), etc. O despreparo dos professores é evidente. A culpa não é unicamente dos professores, mas do próprio sistema de ensino que os gerou; a coisa toda vem de longe. Às vezes ajudam a perpetuar a situação, agindo como seus próprios algozes. Um exemplo seria o fato de que muitos professores se associam a movimentos visivelmente anti-intelectuais, como sindicatos partidarizados; aliás não vi até hoje nenhum sindicato que seja a favor de pessoas inteligentes. Coisa que não aconteceria se a educação 'a priori' não tivesse falhado. Mas essa é outra história, a ser lembrada em dia adequado. Também há um processo de auto-depreciação automático quando o professor, por falta de conhecimento, escolhe e segue metodologias/conceitos que não são científicos. Acreditem, essas coisas acontecem também fora da área das exatas. Neste caso não é o professor que é prejudicado, mas o aluno. Porque cedo ou tarde o aluno enfrentará a realidade. Não raro encontro professores que não questionam o status quo -- não só da sua área, mas da sua vida. Uma coisa curiosa (e recente) é que estamos em uma era onde as pessoas fogem da responsabilidade como um funkeiro foge do dicionário; e é um fenômeno global. Nessa onda de "eu faço minha parte, e SÓ a minha parte" entra a questão dos pais. Educação é coisa que começa em casa, mas os pais preferem terceirizar a obrigação biológico-moral para as escolas. Isso é de uma maldade atroz, um comportamento que não segue nenhuma lógica. Bom, talvez seja até uma conseqüência óbvia: o que esperar de pais irresponsáveis e imorais, que "deixam a vida levar", vivendo tal qual animais? Tem um argumento em que se diz que não seria bom que os professores do ensino público ganhassem mais do que ganham; geralmente é parte de um pacote ideológico onde figuram estatísticas de países como a Coréia do Sul -- onde figura uma realidade completamente diferente da brasileira --, que comprovariam a tese. Estão de brincadeira os que proferem essa tese. Como pode um cidadão que vai alfabetizar crianças ganhar perto de um salário mínimo por 20 horas de trabalho? Que tipo de educação fora da sala (como, por exemplo, freqüentar livrarias e participar de eventos culturais pagos) um professor consegue se isso mal serve para se alimentar? Mesmo se conseguisse sobreviver (note a palavra "sobreviver"), e o resto? Não seria o professor -- por mérito -- um cidadão exclusivo, que deveria ser premiado pela sociedade diferenciadamente *exatamente* por ser mais importante e servir como fundação mais básica da civilização? Seria e é. Eu, que sou autodidata por teimosia, reconheço que sem a massificação da educação não seria possível o avanço que tivemos nos últimos dois séculos em termos de ciência e organização da sociedade (inclusive com todos os defeitos associados). Então porque não darmos o passo adiante e valorizarmos os maiores responsáveis pela civilização como conhecemos? Nessa parte alguém pensaria "ah, os que estão no PUDÊ não querem fazer isso". Vamos imaginar por um instante que não seja este o problema. Pode ser que seja a) o despreparo ou b) motivos ideológicos, por exemplo. Se a) a maior parte dos que estão "no comando" também não tem preparo. Nem tinham antes, senão a situação não chegava onde chegou. Não se sabe para onde se quer chegar, o que fazer; que seria o mais adequado. O ensino dá o resultado décadas depois, então não é atrativo. Pior é o b), onde imaginam que sabem o correto porque seguem a cartilha duma ideologia sem nenhum respaldo científico. Quando o resultado obviamente não aparece, chega a hora de maquiar o resultado: seja aumentando a nota do aluno, seja diminuir os scores mínimos para que as estatísticas se igualem a outros países, pra ficar nesses dois exemplos. Neste caso não se valoriza o professor porque o mais importante é o método em voga, etc. e o professor que se dane para se adequar aos novos "achismos" pedagógicos. Quanto aos que desconfiam que "é que ELLES preferem que a população seja burra", às vezes tenho sérias dificuldades em aceitar que os políticos saibam o que estão fazendo; que tenham um projeto, por exemplo, para "perpetuar o mal". Ou que tenham um projeto, mas que de fato entenderam o que o próprio significa. Mais coisas se explicam pela incompetência (ignorância?) do que pela maldade, não é mesmo? Talvez seja o caso; a nossa democracia, no final das contas, seria realmente representativa. Por indução, ELLES são os melhores exemplares de nós, a população que acabou educada assim: hedonista, anti-intelectual, com ódio do mérito e asco do conhecimento.
Posted by Fernando Massen


