O brasileiro não sabe lidar com o contraditório.

Nunca soube. É histórico.

Ainda não fizemos a transição moral de um império fajuto para uma
república com traços leves (bem leves, basicamente relegados à eleição
em si) de democracia. E talvez o maior símbolo de uma democracia
saudável seria a capacidade de alguém dizer algo e não ser patrulhado
por isso; alguém ouvir algo e não ter o direito de se ofender por ser
uma opinião diferente.

Hoje, graças ao aleatório, estava "zapeando" pela internê e de repente
vi um link com a cara do Kaká: pensei que era a seleção pedindo
desculpas ou ainda assim aumentando a polêmica Dunga / jornalistas.
Era para aumentar a polêmica: exatamente no momento em que o stream do
vídeo começou a tocar -- e não estava esperando por isso, ia fechar a
janela por desapontamento -- o filho do Juca Kfouri estava
questionando algo sobre o jogador, que respondeu com um argumento
clássico estilo "estou sendo perseguido pela minha religião".

Segundo o que consta no blog do Kfouri, o trecho é este (bem mais
aproximado do que eu escutei do que a ediçao pró-Kaká do UOL):

"Há algum tempo os canhões do seu pai são disparados contra mim. A
artilharia dele está voltada contra mim. Eu queria aproveitar a
pergunta para responder às críticas que ele vem fazendo, e o que me
deixa triste é que o problema dele comigo não é profissional, mas
porque ele não aceita minha religião. Porque eu sou uma pessoa que
segue Jesus Cristo. Eu o respeito como ateu, e gostaria que ele me
respeitasse como [seguidor de] Jesus Cristo, como alguém que professa
a fé em Jesus Cristo. Não só a mim, mas a todos os milhões de
brasileiros que acreditam em Jesus Cristo".

What?

Até me dei ao trabalho de ler o blog do Juca até, digamos, uma semana
atrás, e não vi nenhum exemplo de "canhão" sendo disparado. Muito pelo
contrário. Vamos traduzir o que Kaká poderia ter dito, segundo os
acontecimentos:

"Seu pai me critica muito, é um dos poucos que ousa me criticar. Eu
quero diversionar um pouco, porque é prática comum de boleiro. Vou
justificar meu diversionismo me fingindo de 'minoria perseguida', ou
dar a impressão de que o Juca é um extremista (afinal poucos lêem
jornal, quiçá a coluna/blog dele). Vejam como sou bonzinho por ser
cristão (ou fingir ser, o que nos olhos das pessoas dá na mesma). Eu o
tolero porque a lei exige, mas não tolero críticas. Nem eu nem todos
os evangélicos".

Esse é o pensamento típico desta onda anti-intelectual, anti-debate,
cheia de falácias e frases-curinga que não dizem nada que vem
aparecendo nos últimos anos, principalmente depois da
redemocratização. Criticar pode; ser criticado é perseguição (ora
intelectual, ora religiosa, ora política, ora racial -- você escolhe o
tema para se defender de um debate real).

Não sei exatamente de onde surgiu esse tipo de estratégia de debate --
é um diversionismo multimilenar, e é o mais usado hoje no Brasil.
Observe as polêmicas do dia, do mês -- a maioria segue a linha do
diversionismo. O pior é que o interlocutor geralmente acredita nesse
tipo de coisa. Em exemplos dessa semana: não gosta-se do Galvão Bueno
(com razão, inclusive)? "Cale-se". No início era uma brincadeira,
depois virou palavra de ordem: Tadeu Schmidt defende a emissora que
paga seu salário sofismando? "Não tem o direito de falar, vamos
boicotar a emissora". A própria emissora não aceita que não falem com
ela. É puro autismo.

Não por acaso, é o tipo de argumento dos fanáticos religiosos: em vez
de aceitar a crítica, ou rebatê-la com fatos, vamos nos fazer de
"perseguidos" e contra-atacar com a bota.

O que isto também demonstra, além de uma posição defensiva? Que o
brasileiro não conhece (ou finge) os princípios da livre expressão.
Ser livre pra expressar o que se pensa inclui obrigatoriamente poder
divergir, e não se ofender quando alguém diverge. Observe os
comentários do blog do Juca Kfouri sobre este post e verá que a
maioria é visivelmente de gente com pouca ou nenhuma cultura, domínio
primário do português, e com um viés teocrático-autoritário que faria
um aiatolá sorrir.

No caso específico do jogador, tem um agravante. Os donos da sua
igreja já foram inclusive presos lá fora, num país majoritariamente
protestante, onde não puderam alegar "perseguição religiosa".

O apoio dos fiéis continua. É um dos motivos pelo qual o boleiro é
bastante citado como referência. A opção dos fiéis em continuar dando
crédito é particular, e não precisa do aval de ninguém; mas as
opiniões não podem ser proibidas só por isto. Todos têm o direito de
questionar *sim*. Qualquer metafísica, por mais plausível, pode e deve
ser questionada. É uma obviedade para você que lê, mas não entra na
cabeça dessa gente toda que é explorada de várias formas e... vota.

Ah, talvez esteja aí o problema. Não seria um problema semântico, de
educação ou filosófico, mas sim de estratégia.

Meses atrás eu estava zapeando e vi um pedaço de entrevista com um
autor brasileiro de biografias -- não lembro o nome dele. Uma coisa me
chamou a atenção: no meio de uma resposta, ele disse algo assim:

"Não há a menor dúvida de que o Brasil virará uma teocracia daqui a
20, 30 anos. A dúvida é se vai acontecer antes ou depois. É só olhar o
aumento do número de evangélicos".

Esse link é interessante:
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/06/22/brasil,i=19880...

Para uma teocracia ser implantada a contento, é necessário apoio do
povo. Apoio moral, um "cheque em branco" para que os ditadores façam o
que quiser e com urros dos "torcedores". Distorcendo o conceito de
opinião, democracia, liberdade religiosa, e esmagando a separação
entre estado e religião, está feito o caminho: é só marcar a
derrubada.

A quem interessa não haver o tal de "contraditório" mesmo?