Minha mania com as duas rodas.
Senta que vem história.
Geralmente toda coisa em que se desenvolve uma obsessão não é saudável. Aliás, prefiro dizer que não é, mesmo que seja. Sendo assim, estou sofrendo de uma compulsão nada saudável sobre bicicletas. Até agora tem sido saudável: não sinto aquela dor pós-exercício que dura alguns dias; não tenho mais hematomas em diversas partes do corpo; não há tanto suor nem desconforto em subidas; principalmente, consigo realizar subidas que não conseguia fazer de jeito nenhum. O ruim é que eu não consigo manter só um "equipamento" para realizar as "corridas". Comprei uma bicicleta, depois outra, depois outra. Troquei peças. Torrei um dinheiro bonito (ainda que pouco perto dum modelo qualquer dito profissional) trocando peças e consertando pneus, aros, câmbios. Mas é uma coisa que dá um prazer inigualável (dentro do que se refere a esporte individual, que fique bem claro). A obsessão toda começou uns dois anos atrás. Tinha uma bicicleta daquelas que se compra em mercado hoje em dia por menos de R$ 200 (mas que na época, 1996, custou bem mais; uns R$ 450, quando R$ 450 valia dinheiro. Não é que o dinheiro agora compra mais coisas: é que os materiais ficaram tão baratos que míseros R$ 200 (que não valem nada) conseguem comprar uma bicicleta). Era uma mountain bike. Usei ela extensivamente de 1996 a 2000. Em 1999/2000 eu usava para a comuta trabalho <-> casa. Era chato, caro, demorado, desconfortável demais pegar ônibus. A distância de casa até o trabalho era 3 km, sendo que no meio havia um morro de inclinação considerável (o "pesadelo da volta"). Mesmo sendo mountain bike eu não conseguia subir o tal morro. Em 1996 eu pesava 67 kg; em 1998 já pesava 75; depois duma breve incursão em um hospital pulei para 85; e, quanto mais o peso aumentava, pior ficava para subir o tal morro. Mas o fôlego (para o resto) eu mantive. Até 2000. Aí eu já estava na universidade, e vida de universitário não é saudável. Não pode ser saudável, senão não tem graça. Corta para 2007, e me vejo me mudando para uma cidade onde todo mundo tinha pelo menos uma bicicleta (mais de uma bicicleta per capita). Então eu ressuscitei a maldita mountain bike genérica e, bem de vez em quando, saía com ela nos fins-de-semana. Nada sério. Explico o "maldita". Nos anos 90 (final dos 80, na verdade), o Brasil sofreu a invasão das "mountain bikes": bicicletas pesadas, que supostamente serviriam para andar nas montanhas, em terrenos inóspitos, etc.; ocorre que a tropicalização da bicicleta não deu muito certo para a manutenção do conceito "montanha": as bicicletas eram toscas, quebravam só de deixar sob o sol, e se você se arriscasse nas montanhas, era acidente certo. Em suma, eram boas para trafegar nas cidades sem nenhum planejamento que o Brasil tem. E eram baratas o suficiente para que (quase) todo mundo pudesse comprar. Então se convencionou assim: jovens usam as MTBs, pessoal mais velho e "operário" usava variantes de Barra Forte (aquela bicicleta desconfortável e insegura, mas que dura bastante e não deve custar mais de R$ 40 para fabricar). Houve mini-tendências ao longo dos anos 90 em termos de acessórios; todas as tendências passaram. Hoje essas MTB têm cara de Transformers (o filme novo), e um quê de cultura emo. Pode notar. Nada disso impediu que as MTBs se popularizassem. Nem a destruição do conceito de bicicleta de montanha e a necessidade de ter um modelo mais adequado às cidades (que acabou acontecendo, mas são caras que só vendo). E agora começam a pipocar variações "chopper" baseadas em MTBs. Terrível; é um negócio que já nasce com data para terminar (assim espero). Mesmo sendo (aparentemente) mais confortáveis que outros modelos, acessíveis e ganhando todas as inovações do ramo (freios a disco, suspensão, câmbios práticos, etc.) eu não conseguia me sentir confortável pedalando com elas. No início eu pensei que era a altura do selim ou coisa assim. Não era. Eu é que era incompatível com as bicicletas. Me lembro de ter, de empréstimo, uma Caloi 10 dos anos 70 por alguns minutos; isso no meio dos anos 90. Eu quase tinha minha altura atual, mas mesmo assim era difícil de manobrá-la, era rígida, precisa; muita curvatura e eu quase caía; não dava para andar devagar; a correia caía fora se eu ousava muito na troca de marchas. O que me fascinava era o guidão "multiuso" (umas quatro posições diferentes podiam ser usadas ali) e as dimensões magricelas do quadro e pneus. Essa fascinação ia me "procurar" depois. Em 2008 eu decidi viajar para um lugar onde se poderia pedalar com o auxílio da lei (porque o trânsito daqui é assassino com a complacência da lei; o efeito oposto). Então fui lá e comprei uma bicicleta que até hoje não sei a marca nem o modelo, mas era uma "speed" adaptada. Foi amor à primeira curva (pra não dizer "vista"). Rodava tão confortavelmente quanto as "omafietsen", com a diferença de ser rápida a ponto de alcançar os trams. Praticamente destruí a bicicleta de tanto andar. Tive que deixar lá; imaginei que, ao chegar por aqui, a Gol ia querer me cobrar praticamente o valor da bicicleta para transportá-la (eu não estava muito fora da expectativa não; parece que custa uns R$ 200). Poucas semanas depois vi uma Caloi 10, novo modelo, numa loja de bicicletas. Na real estava interessado naquelas scooters elétricas, mas a visão da bicicleta ocupando toda a vitrine -- montada, pronta para usar -- fez eu desistir da scooter na hora. Perguntei quanto era e nem pensei: fui no banco, quebrei o porquinho, comprei à vista. Acabou não sendo a da vitrine; foram duas horas longuíssimas até que outra, direto da caixa, estivesse pronta. Ao chegar em casa começou a chover; mas no outro dia eu tirei a desforra. Uma das melhores compras que eu já fiz. Pelo benefício, não necessariamente pelo produto. E como a desgraçada anda. Noto que os motoristas não gostam nem um pouco da competição. Depois de alguns meses de uso diário, o desgaste foi inevitável. A ponto de trocar o cubo traseiro, várias câmaras, e pelo menos uma roda. Eis que um amigo (Ari Jr., que agora deve estar em Portugal) revelou que tinha, paradinha, uma Caloi 10. Fui ver, e era o modelo antigo. Dei um jeito de levá-la alguns dias depois, e, ao voltar de noite de Gramado, fui pedalar madrugada adentro. Minha surpresa: o modelo antigo era realmente muito melhor que o novo. Parecia que tinham adivinhado o tamanho exato do quadro. Um ano passa, e eu deixo de andar diariamente, para apenas andar nos fins-de-semana (corrija-se: praticamente todo fim-de-semana, quase que religiosamente). Para compensar os 14 km diários, a cada fim-de-semana faz-se uma corrida maior (geralmente cruzando cidades, ou as rodeando). As chuvas aparecem junto com o inverno, e há vezes em que eu vou andar mesmo chovendo. Poucos meses depois, me vejo andando por São Paulo, e na rua da FNAC Pinheiros vi uma Caloi 10 (1984, com adesivos Mondrianescos) por apenas R$ 300. "Pechincha", pensei. Era. Desbravei horrores no trânsito horroroso de São Paulo por alguns dias. Era a liberação do táxi, do ônibus e do metrô. E nem achei os motoristas tão agressivos como dizem (talvez estejam se acostumando com as 300 mil bicicletas em circulação na capital de facto do Brasil). Consegui trazê-la para casa, depois de manobra logística de certa complexidade. É o novo cavalo-de-batalha: já quebrei o câmbio original (em "lance de bola parada"), modernizei os aros e rodas, entre outros reparos menores. E neste fim-de-semana foram dezenas de km com ela. Abaixo (se o Posterous colaborar) o modelo antigo e o novo. Não necessariamente na mesma ordem.Não sei se eu as trocaria por modelos speed mais novos (e mais caros). Acho que não. Por alguma estranha razão, a sensação de liberdade que essas "magrelas" rígidas e aparentemente burocráticas dos anos 70 trazem não se igualam nos modelos de hoje; pelo menos não nos nacionais. Talvez haja uma marca estrangeira que me agrade, mas não estou disposto a pagar para ver.
Percebi de uns tempos pra cá que esse amontoado de ferro e alumínio (com pequenas porções de inox) é o que está me mantendo vivo; dando motivos para eu continuar seguindo os próximos objetivos, sejam quais forem. Pensei que era o contrário: que eu estava sustentando o "vício" das horas vagas, mas não, é a obsessão que tomou conta. E me sinto o próprio Robert Pirsig quando saio por aí meditando em duas rodas.
Posted by Fernando Massen



