O primeiro Android a gente nunca esquece. Porque é caro demais pra deixar por aí.

Um dos meus princípios é odiar telefones, essas maquininhas que falam. Mas tive que flexibilizar um pouco esse princípio, porque hoje em dia o que as maquinetas fazem de menos é falar; o negócio é tocar música, "aceder" à internet, e atormentar transeuntes. Como o que me interessa mais é estar disponível em "modo texto" em lugares distantes, fui atrás dum celular "espertinho" (smartphone).

(A história é um pouco mais vexante: cancelei minha linha no ano passado porque o celular tosco que eu tinha estava com a bateria arriada; e acabei perdendo o celular da mulher na saída de um pub. Então meio que fui "intimado" a resolver "o problema".)

A princípio não ia comprar um smartphone, mas um negócio que só falasse. Só que todos os modelos disponíveis pareciam "MP19" demais, ou com cores estilo Barney-na-floresta. Ou ainda estilo "ciclista de barra-forte". Estava praticamente desistindo, até que olhei para cima (em comércio, tudo que é mais caro fica acima): tinha um telefone da Motorola, com o tal Android, que estava por +- R$ 600. Fui ver como funcionava.

Depois de muita enrolação (graças aos diversos macetes possíveis de se fazer com o plano para ganhar desconto no aparelho) descobri que o valor real da peça era R$ 999. R$ 600 mas com plano "bola-de-canhão-no-pé" de tão caro. Aí fiz um meio termo, pedalei uma parte do cartão de crédito e o resto à vista.

O aparelho é um Motorola Cliq com um tal de Blur.

Ao chegar em casa eu começo a perceber as diferenças entre, digamos, entre o iPod Touch e um sistema Android.

A começar pelo hardware:

- Teclado físico para o Cliq. Isso faz uma diferença enorme em produtividade para mim, que nunca me senti confortável com o teclado a toque do iPod. Provavelmente no iPad a coisa toda seja melhor e mais precisa, apenas porque é maior. Algumas teclas, como a de pesquisa e a de símbolos são uma mão-na-roda (a troca de modos no teclado virtual do iPhoneOS resolve o problema do software, mas é terrível do ponto de vista da usabilidade).
- Botões a mais no Cliq que não fariam muita diferença. Tem um botão para voltar no Menu, tem um para aparecer um menu de contexto, tem um para iniciar a câmera, e outro para deixar "no mudo". Francamente, tudo isso poderia ser feito via software, e, ao manejar o aparelho, eventualmente se esbarra num desses botões. Desconto um ponto no Cliq.
- Saída de som absurdamente alta (comparada com o iPod). É um ponto positivo porque funciona, mas um ponto negativo no sentido... digamos... sociológico da coisa (imagine o quanto de abuso as pessoas sofrem diariamente por pessoas sem-noção que usam o telefone como boombox).
- Duração da bateria maior no Cliq. Provavelmente pela bateria ser mais potente, ela dura mais. Embora o Android tenha multitarefa e as coisas realmente aconteçam o tempo todo "debaixo dos panos", a bateria parece durar mais fazendo a mesma coisa. Isso é bom e de certa forma mostra que essa história de monotarefa que o iPhoneOS tem na interface é meio que uma desculpa para evitar que os usuários tenham que lidar com o aspecto negativo da multitarefa (aplicativos "muito loucos" que consomem recursos como se não houvesse amanhã).
- CPU mais veloz no Cliq. É notável a diferença de velocidade das CPUs, embora (IIRC) o software que rode no Android seja rodado sob uma VM. Claro que eventualmente os telefones/iPods novos da Apple vão compensar.
- O botão de desligar do Cliq, quando pressionado por poucos segundos, mostra opções para desligar antenas WiFi. Isso é positivo, mas eles poderiam ter colocado no "task manager". É fácil de acostumar com a idéia, no entanto.
- O iPhone é mais fino. Isso faz a diferença positivamente e também negativamente (mais fácil de perder, escorrega fácil, etc.); a robustez dos dois aparelhos é similar (ou seja, longe do ideal).
- Dá para trocar a bateria do Cliq. Pontos infinitos para a Motorola.
- WiFi mais potente/mais ágil no Cliq.
- A câmera do Cliq é ligeiramente inferior à do iPod, pelo menos à primeira vista. O engraçado é que o iPhoto reconhece legal a câmera do Cliq ao sincronizar (poderia ser assim com o iTunes, mas daí é exigir demais da Apple, não é?).

Já quanto ao software:

- Sistema de arquivos real no Cliq, tal qual um PC genérico. Você organiza do seu jeito, e sem riscos de apagar os dados caso se apague a aplicação. Grande vantagem de qualquer sistema Android. E nem gera tanta complexidade a mais assim.
- Sincronização impossivelmente simples no Cliq: é só plugar o cabo USB (ou baixar um daemon FTP/AFP/SMB) e colocar arquivos lá. Sem iTunes, sem proprietarismos infantis, sem "não funcionou desta vez". É como qualquer coisa que armazena dados e se conecta via USB deveria ser.
- O reprodutor de música do Cliq não é um iTunes "mobile" em termos de beleza, mas funciona a contento.
- O sistema de captura dos toques no touchscreen é bem mais afinado e preciso no iPhoneOS do que no Android. Às vezes é bem irritante.
- A scrollbar sempre aparece no Android. Isso é bom, e nem ocupa espaço (deve dar uns três pixels ao todo de largura, nem cheguei a medir).
- A "app store" do Android (o tal Market) tem vários aplicativos básicos que a Apple censuraria; em compensação a parte comercial não é tão forte, o que faz com que certos aplicativos bacanas mas pagos não estejam disponíveis ou sejam inviáveis. Isso é assunto para um artigo maior, mas pelo menos foi essa a impressão inicial.
- É mais rápido instalar bobagens do Market do que da App Store, embora a qualidade dos aplicativos seja menor em muitos casos. Isso reflete um pouco as prioridades dos desenvolvedores de cada plataforma, e é compreensível. Até agora não tem nada que não tenha precisado que não haja no Market.
- É mais fácil (e barato) colocar Doom no Android do que no iPhone. Pontos infinitos para o Android.
- Não testei executar vídeos no Android, mas promete ser mais compatível que o iPhoneOS, por motivos óbvios.
- Quanto ao Android 1.6, falta um esquema para configurar proxy. Sim, esse é o maior defeito que eu encontrei, e os caras merecem uma surra. Há aplicativos pra isso (!), mas não fui atrás.
- É mais fácil desenvolver para Android do que para iPhone. Em compensação, as ferramentas de desenvolvimento (ou seria "a" ferramenta?) para o iPhone são mais bem-acabadas e estáveis.
- Dá para colocar qualquer coisa como ringtone no Android. Não sei como é o iPhone hoje, mas não era assim.
- O sistema de gerenciamento de imagens do Android é esquisito e desnecessariamente complexo. Poderia ser uma coisa bem mais simples e rápida. Pelo menos funciona.
- Dá para filmar com o Android. Fica bacana.
- O "desktop" do Android é pequeno demais para conter várias coisas, mas é uma idéia bacana. Não sei como desativá-lo, porque prefiro outra maneira de interagir com o telefone (o "desktop" minimalista do iPhone é bem mais prático e preciso).
- O Android roda linguagens de script, como Python e Ruby. 'Nuff Said.

Não cheguei a ver coisas em 3D real, ou mesmo se os dois hardwares suportam. De qualquer forma não me importo muito. Se eu tiver mais tempo livre do que agora (duvido) talvez eu crie uns brinquedinhos para essa coisa aí (e provavelmente portar meu mini-unix feito em Python para ele).

De qualquer forma, a impressão final que fica é que o Android é um sistema aberto, pronto para receber diversos hacks; e o iPhone/i* é um eletrodoméstico, uma appliance.

De como e quando me acidentei -- em detalhes.

Era 26 de dezembro, logo de manhã. A mulher insistiu em ir para a casa dos pais no natal, e bastante contrariado eu fui.

Não deveria ter ido.

Levei as duas bicicletas de corrida, a minha mais "competitiva" e a Caloi 10 modelo "2008" dela. Aí começamos numa descida de serra. Depois outra descida.

Depois outra descida. E mais uma.

Meu velocímetro é daqueles feitos na China, bem imprecisos. De um tempo para cá, depois de "forte pedalada" ele reseta sozinho. Não sei se é um "mau contato" ou se é porque é chinês. Fico com a última possibilidade. O que ocorre é que depois dessa pedalada estranha vi que estava marcando 38 km/h.

Vi que havia uma faixa de tartarugas (daquelas mínimas) na pista. Inclusive sob o acostamento; faltavam colocar tartarugas no mato também (ultimamente têm posto tartarugas até onde é *impossível* de se andar rápido; algum superfaturamento aí há). Pensei: essas tartarugas são finas, vão dilacerar o pneu fino (e frágil) da bicicleta.

Deveria ter deixado furar, estourar, o que fosse.

Fui freando com o freio de trás, que é mais leve e freia menos (por design e por meu próprio ajuste, pra não fazer "skiding"). Vi que não era suficiente (na real não estava freando quase nada) e resolvi usar o da frente. Em menos de um segundo o braço esquerdo foi para dentro, e a bicicleta estava longe, do outro lado da pista.

Me arrastei para pegar a bicicleta e jogá-la fora da pista, para não piorar o acidente (e também, confesso, para não destruir o eventual resto).

Não consegui respirar. Dores fantásticas nas costelas esquerdas. Consegui levantar no susto (não conseguir respirar é algo que deixa qualquer um em alerta). Comecei a gritar feito um ogro ("A manly scream", como eu me lembraria nessa semana que passou). Mas só conseguia expirar.

Uns trinta segundos depois conseguia inspirar com razoável facilidade. Vi que um casal parou seu FIAT (imagino que era um, talvez fosse um Peugeot, vai saber) e ofereceu ajuda, perguntaram se estava tudo bem. Nisso minha mulher chega, talvez arrependida por termos "subido".

Ao tentar avisar que estava tudo bem percebi um negócio estranho: o braço esquerdo não respondia bem. Só conseguia mexer a mão, e ainda pro lado de dentro. Pensei: ok, quebrei o braço esquerdo, 'no big deal', fico no máximo duas semanas em casa e boas. Nisso chega os paramédicos, chamados sei-lá-por-quem. Vieram em minha direção.

Não deveria ter ido na direção deles.

Nessa hora já estávamos pedindo pro cunhado nos buscar, estávamos montando a bicicleta de novo (ou vendo o que tinha acontecido), mas fui imobilizado do nada, sem ser perguntado sobre o óbvio, e meio que contra a minha vontade. Em vez de ir prum hospital que ficava a seis quilômetros dali, fomos num a trinta e poucos. A 120 km/h. Solto na maca. Com paramédicos que não imaginavam o que era paramedicina (quanto mais medicina).

Gritei (urrei) palavrões em línguas germânicas, para não desconfiarem do meu descontentamento. Sabia que se reclamasse em algum formato latino ou ia ser ignorado -- ou pior -- poderiam imaginar que eu estivesse (como estava) sofrendo dores inéditas, aumentando ainda mais a velocidade. Então a 120 Km/h tava bom.

Cheguei no hospital destruído. Não conseguia levantar a cabeça, mas isso era um alívio. Um dos médicos confessou que era "ciclista regular" mas só andava "pelos lados de Porto Alegre". Respondi que era o melhor que ele fazia. Por mais homicidas que os portoalegrenses sejam na direção, pelo menos tinham noções básicas de paramedicina e estavam acostumados com a noção da bicicleta.

Ouvi falar que a polícia interrogou o meu cunhado, porque segundo o imbecil do vizinho dele (que deve ter chamado os paramédicos), estaria envolvido no acidente. Já que é assim, poderiam ter prendido os paramédicos -- vai que não foram eles que me atropelaram, não é?

Queriam que eu ficasse cinco dias no hospital, à esperar uma cirurgia. Hã? Só tenho um braço quebrado, doutor. Deixa eu ir pra minha cidade que eu cuido lá disso. Ninguém na emergência entendeu nada: afinal de contas não é costume pessoas saírem de "hospitais de primeiro mundo" que ficam em uma cidade "como se fosse do primeiro mundo" (sic) para voltar para suas "favelas" (Esses "sics" não são desse fato, mas creio que ficou subentendido).

Fiz seis chapas, que só poderiam ser retiradas daqui a seis (seis!) dias. Belo primeiro mundo esse. Aqui na favelinha sai na hora a "chapa" e custa menos.

Voltei para casa, fui pra clínica do plano de saúde (que deve ficar assim, na descrição "genérica"). Estava imobilizado naquele esquema "mais ou menos", de "primeiro mundo", saca?

O veredicto foi o mesmo: precisava de uma cirurgia. Em no máximo 15 dias. E como só tinha passado cinco e meio dos seis meses de carência do plano, tinha que desembolsar uns 7k para pagar. Inclusive cada parafuso ia custar algo estilo R$ 50 ou coisa assim. Naquele dia estávamos pensando em vender coisas, etc. para não entrar em dívida.

Deveria ter nascido dois meses antes. Aliás, nem lembro direito se fui prematuro ou não.

Bateu o desespero e fui no SUS. Depois de quase quatro horas fui atendido por um médico que parecia estar me fazendo um favor -- e recebi um xingamento por não ter aberto a porta direito ou coisa assim, o qual respondi rindo sem parar. Ele não ria. Não poder ser demitido torna as pessoas assim, sem humor.

Deveria ter virado deputado, depois senador, depois ditador, e ter privatizado tudo que é público. Mas não, resolvi estudar.

Bati mais duas chapas. Com essa tínhamos mais de dez, num dia só. Até agora não notei câncer nenhum, então raios X não fazem nada, esse negócio de radiação é mito. As chapas saíram tão ruins que até eu sabia que estavam erradas. O veredicto dessa vez foi diferente: eu poderia fazer a cirurgia dentro de vinte dias, sem problema nenhum. E "não ia dar nada", não era "nada sério".

O outro rapaz na fila (pense bem: a fila tinha duas pessoas e demorou quase quatro horas) tinha se acidentado de moto, coisa feia, estava se retorcendo de dor. Também "não era nada". Decidi desconfiar do médico, mas eu tinha que apelar pro serviço público (aquele que pago desde os 14 anos e só precisaria agora).

Depois de ir para três salas diferentes pedindo informações me disseram para voltar dois dias depois na fila do SUS. Foi o que fiz. Em meio a tantos evangélicos, pensei que um culto ia iniciar ali mesmo, na fila. Tinha até um candidato a pastor. Por sorte minha, as portas abriram.

Pelo menos o médico que atendeu (ignoremos a espera nesse momento) era o mesmo do plano de saúde. Já fiquei mais tranqüilo. Foi a consulta mais rápida do SUS, eu garanto. Afinal de contas, não quero incomodar.

Deveria ter incomodado.

Minha mulher entrou em desespero (não que não estivéssemos, mas ficou evidente), e "foi atrás". Conseguiu dobrar o coração do pessoal do plano e autorizaram a cirurgia, com base em mais um laudo que dizia que era "de urgência". A dor que eu sentia que o dissesse -- a pior coisa é incomodar os outros com sua dor ou seus problemas, porque mais cedo ou mais tarde todo mundo vai ter algum problema, e o seu não é o único, nem o mais especial. Se bem que nessa hora era único, especial e relativamente urgente.

Tinha quebrado o úmero proximal ("o braço de cima", na altura do ombro) em três partes (como se ele tivesse "perdido a cabeça" do osso, ou "destampado", na visão imaginativa do médico); duas davam para recuperar, uma não (e não faria falta). Estiramentos, atrofias, traumas, essas coisas se sucederam também.

Fiz a cirurgia uma semana depois. Segundos antes tomei aquele mata-leão que é a anestesia geral. "Olá, meu nome é doutora fulana-de-tal, anestesista, etc." -- eu sorri porque sabia que ia esquecer tudo. Quando fui dar um palpite sobre o filme que tinha passado ontem (a equipe cirúrgica tinha visto o Código da Vinci um dia antes) eu acordei todo amarrado. Me proibiram de levantar a cabeça, mas era pro meu próprio bem.

Agora tenho um parafuso cirúrgico que vai diagonalmente de um lado até outro da cabeça do osso. Uns sete centímetros, se eu olhei certo. Consigo entrar em bancos normalmente, mas não conseguiria fazer um episódio de House M.D..

A autorização do SUS para *marcar* um dia para fazer a cirurgia veio três dias depois que eu fiz a cirurgia... desnecessário dizer que iria ser bem tarde; alguma seqüela ia ficar.

Errei, pensei que ia me recuperar em 15 dias: não aconteceu, e tive que ir no INSS (outra faceta bisonha do governo). Mas fui numa agência pequena, na cidade onde trabalho, e só gastei um turno inteiro para fazer a perícia. Eu relutei, disse que não precisava, que não queria, mas a regra é essa. Ou faz ou não recebe.

O benefício era para ser até o dia 26 vindouro. Voltei a trabalhar ontem. De que jeito? Passei três dias (quase inteiros) indo e voltando na clínica, no INSS (no qual gastei dois turnos inteiros) onde finalmente deixaram eu trabalhar de volta.

Durante esses últimos três meses, tentei fazer de tudo para passar o tempo: mudei os móveis da sala, comprei hardwares antigos, instalei sistemas exóticos, refiz a rede, refiz o cabeamento, refiz o cabeamento da rede, li livros que estavam nas últimas páginas, iniciei a leitura de outros, vi filmes que queria ter visto, etc. -- mas essas são outras historinhas, em que acabei aprendendo uma cacetada de coisas sem querer. Foram as férias que eu queria, do jeito que não queria, fazendo coisas que eu faço sempre.

O braço responde bem, faz esforço quase normalmente. Esse quase é sempre um problema, certo? E é. Agora na fisioterapia (ou fisiotortura) tenho experimentado dores inacreditáveis, espetaculares, burlescas. Canto músicas ao contrário. Vejo estrelas sem precisar do Stellarium. LSD perde diante de tanta dor. Só não dou uma voadeira na fisioterapeuta porque eu posso estar virando masoquista, então isso poderia prejudicar essa faceta que eu não conhecia; melhor deixar quieto.

Há um mês eu estava no time do McCain e do Jô Soares: levantava o braço até o horizonte, e só. Hoje já consigo fazer 80 graus sem nenhum esforço. E sim, estou andando horrores com a bicicleta "de reserva", e já já vou consertar a "competitiva". Não tenho mais medo, mas isso é porque não tenho mais juízo também.

Deveria ter?