Sou um mangolão

Você vê como o tuíto é, cheio de mistérios, de bugs e de misfeatures
que só prejudicam a comunicação. Hoje, por exemplo, percebi que o
Julio (talvez vocês não conheçam, quem conhece conhece) disse (nessa
ordem) que sou

a) um mangolão (me recuso a escrever mongolão, já que seria ofender os
mongóis ou quem é mongolóide por questões congênitas)

b) que graças à economia emergente gerada pelos inquilinos do Planalto
ele esteve em melhores condições profissionais (embora eu duvide que
seja isso - e eu prefiro ter interpretado errado - porque daí ele
estaria se menosprezando tremendamente, pois é bom profissional)

e c) que sou pseudo-intelectual.

Não existe, obviamente, pseudo-intelectualismo. É uma ofensinha boba.
Escrevo não para refutar o pseudo-intelectualismo (embora eu vá
explicar o porquê do fenômeno não existir, just for the lulz), temos
que apurar essa questão do mangoloidismo.

(Isso se o tuíto, ao forçar o discurso comprimido, não causou mais um
mal-entendido; o legal é que o TweetDeck só pegou as respostas de 3, 4
dias atrás hoje. E ainda falam que é o futuro essa naba.)

Começo pelo final. Farsas como Emir Sader (por exemplo, viu? Tem
outros), no Brasil, são considerados intelectuais de respeito por quem
compartilha do mesmo viés. Mesmo que a lógica seja inconsistente e
senhore(a)s como ele não exalem respeito nenhum por quem pensa por si
próprio, continuam sendo intelectuais. Quem produz matéria intelectual
é intelectual, via de regra. Nesse sentido todo mundo que produz
conhecimento, vai um grande idem.

Há definições mais formais do conceito, mas elas jogam para a platéia:
o dito "intelectual" costuma tentar se separar da patuléia, num
elitismo bobo que o isola das críticas (por mais rasteiras e ilógicas
que sejam). Não sei se o isolamento ocorre por falta de tempo (já que
tentar responder a uma contra-argumentação pode consumir bom tempo, e
a vida é curta). Mesmo assim, hoje temos a internê, e tem gente por aí
no formspring que discute melhor do que sedizentes (ou peer-approved)
intelectuais.

Nessa hora aqui eu ia citar o Humberto Eco, quem sabe outro
intelectual de pensamento similar e até a Marilena Piauí (<-- zueira,
troquei o nome, LOL), pra tentar mostrar alguma necessidade ou
comportamento-padrão entre intelectuais. O que já entrega o método de
muitos: ninguém gosta de pensar muito por si, prefere validar o
pensamento dos outros apenas, sem análise e critério nenhum. Ainda
mais no campo da economia, um sistema dinâmico onde uma só variável
pode não ser suficiente para influenciar o resultado de forma
decisiva.

(Notem que usei aqui algumas weasel-words: "pode não ser suficiente",
"forma decisiva". Se eu fosse um ideólogo, diria com certeza algo
assim: "foi X que inexoravelmente causou Y"; ia copiar alguns trechos
do site da Carta Maior mas ia ficar muito óbvio.)

Sim, é necessário sempre ficar nos ombros dos gigantes, mas antes de
subir convém descobrir se têm a grandeza necessária, e se não são
feitos de areia movediça. Ou seja, convém pensar.

Se eu acho que há uma razão para os que defendem um dos dois lados
"permitidos" (lados, aliás, que são muito parecidos) tiverem sido
influenciados por um processo de influência que remonta à lavagem
cerebral, é porque ponderei muito a respeito disso. Tinha algumas
referências bibliográficas para colocar aqui, mas soaria
contraditório: o que ocorreu é que identifiquei o mecanismo antes, e
depois o que fui lendo foi corroborando (não pensem que só li coisas
anti-alguma-coisa, li as favoráveis também e todo mundo concorda num
ponto -- quem está lá não quer sair; quem está fora quer entrar).

(Recomendo toda literatura que explica sobre as ditaduras do século
XX. Inclusive a literatura que justifica: lá há as motivações pra toda
sorte de arbitrariedade. Estou me coçando aqui para recomendar um que
vi ontem, mas deixarei para as próximas missivas, depois de lê-lo. Aí
eu subo no gigante e vocês podem concluir se ele ruirá ou não.)

Não imagino, como alguns delirantes andam aí falando, que há uma
ditadura em curso (ou no porvir, como alguns que votarão no Vampirão).
Temos várias liberdades intactas, algumas prejudicadas pelo poder
econômico, mas nada que não dê para remendar. Nesse sentido não vai
mudar nada seja quem ganhe hoje.

Mas a propaganda é igual. Até os cartazes são parecidos, embora menos bélicos.

O que ocorre é que participamos de uma briga de gangues, não uma briga
de ideólogos. E daí é que vem minha conclusão "defensores de
candidatura == cérebro pós-OMO": há de se observar que precisa de boa
dose de fé para acreditar que um lado é mais probo que o outro, que
uma gangue tem melhores sentimentos ou é mais/menos humano que os
outros.

Sei o que há de evidências: a arrecadação aumenta a cada ano, e no
entanto o governo continua dizendo (demonstrando?) que é incapaz de
realizar tudo o que precisa como OBRIGAÇÃO; os últimos inquilinos, há
8 anos no poder, continuam reclamando de perseguições através do
malvado capitalismo, mesmo com alguns dos homens mais ricos do país os
apoiando; continuam se achando mais probos e ilibados quando na
verdade é um festival de "tu-quoques" (notem como isso vale pros dois
lados).

É o dinheiro. "Ah, mas o poder...". Que nada, hoje em dia o que conta
é o dinheiro. É o vale-tapioca sempre disponível. É a cadeira
permanente na estatal do pré-sal te dando 50 paus por mês. É para isso
que esse pessoal pegou em armas. É para isso que se apoiou o golpe de
primeiro de abril de 1964. É só o dinheiro. Grana, casa-na-praia,
casa-no-campo, viagem pra Paris, filhos em Harvard.

Me assusta, no caso dos marxistas, que isso passe despercebido.

(Se bem que não assusta: ainda hoje idolatram Getúlio. Emir Sader
escreveria 'Getulho', mas enfim, o intelectual é ele, eu sou só
pseudo.)

Bom, da demonstração do "tu também" eu tiro boa parte do meu prazer
atual sobre o assunto. Me sinto às vezes como o Plínio, um
irresponsável (apud MANGOLÃO) que vê o que está acontecendo, denuncia
a pataquada, e sente aquele deleite de ver os defensores deste ou
daquele esperneando, se engasgando na bile, enfim, chamando os outros
de mangolão.

Corro o risco de perder amigos assim, mas é divertido. Com o Julio eu
faço porque espero que ele me perdoe. Eu o já perdoei inclusive para
futuras ofensas, e nem me chamo Jesus H. Cristo. Nem sou candidato a
nada para parecer santo.

Falando em amizade, não me surpreenderia que daqui a poucos anos o
Serra não seja aliado da Dilma, assim como o Collor. Pra eles é o
dinheiro que importa, o resto é circunstancial; e eles rezam (HA!)
todo o dia para que não percebamos.