Eu e os Macs
Senta que vem história. Again.
Em outras oportunidades contei que tive meu primeiro contato com computadores através duma máquina UNIX. Com as máquinas Apple foram em dois momentos: um com um Apple II "feito no Brasil" (que era dum colega de aula no primeiro grau e que de vez em quando deixava fuçar) e com Macs de agência de publicidade fundo-de-quintal (geralmente Quadras e os primeiros PowerMac). Eram máquinas pesadas, barulhentas, beges, cheias de não-me-toques. Tinham o atrativo de terem um sistema que funcionava como uma alma própria (inclusive com auto-arbítrio; quem usou por um tempo o Mac OS clássico sabe disso). Meu primeiro Mac em termos de propriedade não foi um Mac. Foi um programa que rodava binários de MacOS 6. O programa não "existe" mais no sentido prático, mas foi o primeiro contato com alguma coisa que lembrasse o MacOS. Chamava-se Executor, feito por uma empresinha fundo-de-quintal chamada ARDI. E rodava bem certos programas, alguns jogos (principalmente os já antigos, tipo Prince of Persia), editores simples, algumas ferramentas de programação -- tudo sem precisar do Mac em si. Lia inclusive volumes HFS, contanto que você pudesse ter um drive SCSI no seu PC. CD-ROMs para Mac também. Como o emulador rodava sobre DOS (embora tivesse versões para NeXT, Linux, etc.), bastava fazer uma "carga alta" do driver SCSI da Adaptec 15xx (a placa que eu usava) que tudo ficava bem. Pedi emprestado a um amigo um drive com alguns programas, e os 10% que rodavam chegavam para saciar a curiosidade. Então, ao mesmo tempo em que eu fazia um duplo-boot para alguma versão de Linux, já rodava programetes antigos do System 6 e System 7. Isso foi até 1997, quando descobri o vMac, um emulador de Mac Plus/Mac 512. Depois de grandes peripécias para conseguir a ROM (hoje em dia é tudo muito fácil, uma buscada do Google te provê todas as ROMs feitas para tudo quanto é coisa), quase apelando para o método físico, consegui bootar o System 6 e rodar, daí, todos os programas que eu queria, num Pentium, com velocidade análoga ao Mac Plus. Não demorou muito tempo depois e outros projetos de emuladores estavam surgindo. Mesmo nesse período eu desenvolvendo coisas para Windows para sobreviver, em casa o grande motivo de rodar Windows era rodar um que outro emulador. O que desempenhava melhor era o BasiliskII (que ainda existe e é utilizável), e que consegue rodar hoje em dia até o Mac OS 9 (até onde eu saiba). Em 1997/1998 aconteceu uma sucessão de fatos que fariam minha curiosidade aumentar em torno da plataforma mais ridicularizada (e, talvez, a mais elitizada) no Brasil. Um, que a NeXT tinha comprado a Apple (nunca acreditei em boatos contrários :) ). A outra coisa é que o MacOS tradicional iria virar apenas uma camada de execução -- um "daemon" -- do NeXT. Acompanhei o NeXT desde o final dos anos 80 nas revistas especializadas; parecia tudo muito surreal e impossível, tanto do ponto de vista tecnológico como mercadológico. Sem contar que seria fácil de ter acesso ao novo sistema "híbrido", era só ter um G3. O G3 (processador, computador, geração, chame do que quiser) foi o resgate da Apple. Era um processador que rodava em clock relativamente alto, rápido, com arquitetura de motherboard limpa, tentando eliminar aos poucos o legado "anos 80/90" do Mac. E a Apple criou um sistema de vendas diretas nos EUA, que permitia o cidadão escolher a configuração exata do equipamento (mantendo-se a placa-mãe, obviamente). Em termos de negócio de computador, a Apple continua a mesma: uma coisinha especial numa placa-mãe, com um sistema que se obtém com "venda casada" e que interage com o hardware como se fosse feito para ele e vice-versa. Meia-dúzia de configurações, com drivers conhecidos, e um sistema relativamente estável. Segredo da ressurreição. Eis que veio o iMac. O iMac também mudou tudo, mas no sentido estético da coisa. Fora beges quadrados, entram coloridos redondos (para depois ser transparências, seguido de branco hospitalar, depois aço escovado, e agora "cara-de-tv-de-plasma"). Um computador praticamente sem legados em termos externos. Preço ridiculamente baixo, mesmo comparando com um PC. Como ainda estávamos em época de "bolha do Real", o Real estava artificialmente valorizado, ainda na faixa da paridade com o dólar. Cheguei a comentar em casa: "vamos juntar uma grana e comprar esse negócio aí". Afinal de contas, "esse negócio aí" tinha CD, som, USB, modem, ethernet, tudo incluído. E em questão de um ou dois anos rodaria UNIX. Já se conseguia rodar Linux (como mais tarde fiz com outros PowerPCs). 1999 chegou e o dólar explodiu. Com ele veio uma crise muito pior do que esta que aconteceu (pelo menos no Brasil). Não eram só os Macs que ficaram inacessíveis: tudo ficou inacessível. Mas eu consegui fazer um rolo no fim-do-ano e comprei de um amigo um jurássico Quadra 605 (que funciona até hoje, apesar do HD ter morrido). Foi o primeiro Mac que eu pude chamar de "meu", pra ficar no chavão. Como ele tinha uma porta serial, eu consegui fazer uma gambiarra para fazê-lo acessar a Internet (don't ask). Netscape 3 Gold nunca rolou tão bem na tela (os emuladores eram bacanas, mas a parte de gráficos ficava a desejar -- porque era emulação, e nem com JIT gráficos rodam mais rápido em software do que em hardware real, todo mundo sabe disso). Ficou uma coisa estranha: nos benchmarks os emuladores surravam o Quadra 605 em quesitos de processamento, mas apanhavam feio em gráficos. O Quadra 605 tinha um 680LC40. Acho que é esse o nome, nem vou verificar. O LC significa "Low Cost". Que significa que "floating point" não tinha. A solução era rodar coisas que exigiam "floating point" em software, o que basicamente reduzia a velocidade dessa parte do processamento dos programas em 150%. Em 25 Mhz até sopro fazia diferença. Em nem três meses depois comprei via MercadoLivre um PowerMac 8100, 110 Mhz, 48 de RAM, vários gigas de disco, ethernet (que tive que comprar um transceiver de R$ 50 para colocá-lo em par trançado), e um sonzinho embutido melhor do que o Quadra (já dava para colocar num aparelho de som de certa responsa). E já conseguia tocar MP3. Mas eu já tinha o meu Pentium nessa época; então um acabava ficando servidor do outro, e a minha (conhecida) pendenga de colecionar computadores meio que começa por aí. Sabia que estava "defasado" em termos de software com essas maquinetas (o 8100 rodava até o MacOS 8.1 e só) mas não me importava muito. Ora, o UNIX é um sistema de 40 anos de idade; não há de fato muita inovação na nossa área. E a internet era bem mais neutra em termos de "barreira de entrada", ao contrário do mundinho hipster da Web 2.0, que exclui o usuário cada vez mais (e ele gosta!). Nesse interim -- até que o Mac OS X "for consumers", a versão não-server, fosse para 1.0 -- eu aproveitei para testar, usar, adequar e crashear todo tipo de software para Mac possível. Não me interessava muito coisas estilo Photoshop ou Quark, porque meu negócio mesmo era desenvolvimento e redes, essas coisas que ninguém consegue fazer ao mesmo tempo. Nunca vi muitas graças em certas piratagens também: a maioria do pessoal que pirateava os "grandes softwares" acabava nunca usando mesmo. E espaço em disco não era o mato que é hoje, era um quintalzinho. Daí para comprar um iMac foi um pulo. Os primeiros modelos já tinham lá seus dois (para três) anos, e já estavam surgindo upgrades de 400 Mhz. Os de 233, então, já estavam sendo "possíveis" de serem comprados por R$ 1200 (preço que era de 2008, que tristeza). A parte interessante/mais ou menos boa é que R$ 1200 de 2001 e R$ 1200 de 1998 não valiam os mesmos mil e duzentos. Em 2001 (como hoje) vale menos. Hoje é quase nada, pra todos os efeitos. Novamente usei do MercadoLivre para comprar o iMac. Como na época o site tinha na grandiosa maioria gente séria, a transação ocorreu sem o menor dos problemas. O computador chegou inteiro via VaspEx (que está aí, agonizando devagarzinho) e, numa noite, instalei o mundo. Naquela semana, antes de vir o OS X via correio, ele rodou OS 9 muito bem. E como rodava bem. Nunca mais liguei o Pentium (exceto para limpar as coisas dele e vendê-lo). Era outra coisa rodar os scripts do MPW (e compilar os programetes em Pascal/C) em questão de um, dois segundos e não dezenas de segundos a minutos. Na primeira semana de Mac OS X já tinha instalado (na mão, porque não havia sistema de ports) o PHP, um novo Apache, PostgreSQL, Python, essas coisinhas com que já havia me acostumado. Java já estava lá, era só rodar. Na época do Mac OS X 10.0/10.1 as coisas eram difíceis comparadas com hoje; mas na época era bom o suficiente. Tudo via modem de 56k. E o tal iMac tinha iTunes. E o iTunes era bom (não esse bloatware que é hoje). E rodava DivX. E todos viram que era bom. O Mac OS X era pesado; você notava as coisas acontecendo por trás dos panos. Isso nos G3s; nos G4s a coisa tava bem mais avançada, mas como o dólar explodiu e nunca mais voltou, só consegui comprar um G4 em 2005 (quase no túmulo do PowerPC). Logo depois veio o primeiro "grande update" (ou "serviço quase-obrigatório de proteção da máfia", se você preferir), o tal Jaguar. Eu até tinha conseguido o Jaguar pro G3, mas decidi comprar um iBook (em trocentas prestações, etc. -- lembre-se que havia uma crise permanente no Brasil e que o valor era alto). O iBook já vinha com o bicho. Passei um ano inteiro com o iBook embaixo do braço, literalmente como um caderno. Era praticamente uma extensão do corpo. Em 2003 descobri que todos (aka. 100%) os modelos tinham defeitos na placa-mãe, e que em questão de meses iriam se desmontar. Foi o início do fim da qualidade da Apple. Qualidade marromeno que continua até hoje, mas ainda é melhor que as linhas "populares" da concorrência. Nem tão melhor, vale a pena frisar. Foi uma desilusão grande. Não que eu tivesse sido muito afetado; apenas ganhei desapego (não foi nem de perto como outras perdas que tive na vida). Vendi o iBook por quase nada, mas o suficiente para eu montar um computador "from scratch", como há muitos anos não fazia. Que, aliás, foi uma decepção atrás da outra. Comprei AMD, e a AMD estava nessas de usar engenheiros semi-escravizados, só pode. Ou departamentos de QA que só ganhavam milho, essa era outra possibilidade. Resultado: um combo placa-mãe+processador que aqueciam e queimavam. Pelo menos rodava FreeBSD numa máquina bem mais rápida que um Mac, o que era um certo conforto (no sentido de praticidade de uso). Não deu certo por outros motivos também, não importam agora (é melhor esquecer). Logo depois comprei um G3 Blue&White, uma máquina já 5 anos defasada, mas que pelo menos não aquecia. Não aquecia e não fazia barulho. Eu até hoje acho que deveria ter processado a AMD por insônia causada por ventiladores de Athlon. E o G3 300 Mhz, apesar de ultradefasado, rodava DivX bem, tocava o terror nos DVDs, e rodava Jedi Outcast porque permitia colocar uma Radeon 7000-sei-lá-quanto nele. Depois veio outro G3 B&W, este de 450 Mhz; outro G3 Bege, este quase de graça; vários outros PowerMacs por preço de jujubas, sem contar outras maquinetas RISC com seus próprios Unices. Mas estas são outras histórias. Até que em 2008 cansei da "defasagem de velocidade" (vídeos HD estão aí, pô) e resolvi meter bala num Macbook sobra-de-estoque, daqueles brancos. E ainda fui com cara de bandido (roupa de usar em casa, barbudo, e pagando com cheque dobrado do ano retrasado, porque nunca uso cheque). Deu certo. A máquina já se pagou só pelo aumento de produtividade. Aí me vi usando só o MacBook. E as outras máquinas? Uma virou uma bicicleta; outra virou a máquina de outra pessoa; uma que outra eu doei, e o resto continua no "home office", de vez em quando sendo ligadas para uma ou outra brincadeira. Parafraseando João Lemos, "O Datacenter Acabou". Mesmo depois de tantos anos de contato com a plataforma mais odiada do Brasil, ainda é estranho ver lojas que vendem Apple como eletrodomésticos, pessoas andando com Macbooks e iPhones por aí, podcasts sobre a religião que o mundinho Apple virou. Apesar do fanboyismo do pessoal recém-convertido (os recém-convertidos sempre são os mais fanáticos, pode notar), e da tentativa de Louis-Vouittonização da marca, vai por mim, é melhor agora. Quando era nicho-do-nicho era triste. Poderia ser um desafio gratificante fazer um periférico não-compatível funcionar -- mas não era produtivo. Era caro. Era esmurrar em faca. Não é mais estranho usar um Mac para programar -- porque não é mais só o "computador dos artistas gráficos". Já dá até para declarar IR. Só não vamos tornar as lojas em boutiques, pelamor. Keep it real. E em Reais.


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